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Nican Mopohua, o relato das aparições de Nossa Senhora de Guadalupe

Por ocasião do dia de Nossa Senhora de Guadalupe, publicamos em nosso site o Nican Mopohua (em português, “Aqui se conta”), relato das aparições de Nossa Senhora de Guadalupe ao índio Juan Diego Cuauhtlatoatzin no monte Tepeyac, ao norte da atual Cidade do México, entre os dias 9 e 12 de dezembro de 1531.

Escrito originalmente no idioma náuatle por Antonio Valeriano, nobre índio nahua e mais sábio discípulo de Frei Bernardino de Sahagún, que teria ouvido o relato do próprio Juan Diego, foi publicado em 1649 no livro Huei tlamahuiçoltica, editado por Luis Lasso de la Vega. A tradução em português é do Frei André Luiz da Rocha Henriques, OFM.


Antonio Valeriano
Cidade do México, aprox. 1553-1554

Aqui se conta e se dispõe, como há pouco, milagrosamente apareceu a Perfeita Virgem Santa Maria, Mãe de Deus, nossa rainha, lá no Tepeyac, de renome Guadalupe. Primeiro se fez ver por um indiozinho, de nome Juan Diego; e depois apareceu sua Preciosa Imagem diante do recente bispo Dom Frei Juan de Zumárraga.

Dez anos depois de conquistada a Cidade do México, quando já estavam depostas as flechas e os escudos, quando por toda parte havia paz entre os povos, assim como já havia brotado os ramos verdes, desabrochou também a fé, o conhecimento d’Aquele por quem se vive: o verdadeiro Deus. Naquele tempo maduro, o ano de 1531, a poucos dias do mês de dezembro, sucedeu que havia um indiozinho, um pobre homem do povo: seu nome era Juan Diego. Segundo se diz, morava em Cuautitlán, mas, nas coisas de Deus, pertencia plenamente a Tlatelolco.

No sábado, bem de madrugada, ia seguir a Deus e seus mandamentos. Ao chegar próximo à colinazinha chamada Tepeyac, já amanhecia. Ouviu cantos sobre a colinazinha, como o canto de muitos pássaros raros; ao cessar suas vozes, a colina parecia responder-lhes; seus cantos, sobremaneira suaves e prazerosos, sobrepujavam ao do coyoltototl e do tzinitzcan e ao de outros pássaros raros.

Juan Diego se deteve em contemplação. Falou consigo: “Por ventura sou digno ou merecedor do que ouço? Será que não estou apenas sonhando? Será somente algo como um sonho? Onde estou? Onde me encontro? Acaso estou lá onde os anciãos, nossos antepassados, nossos avós falavam: na terra das flores, na terra do milho, da nossa carne, do nosso sustento? Acaso estou na terra celestial?”

Estava lá, olhando em direção ao topo da colinazinha, do lado de onde nasce o sol, de onde procedia o precioso canto celestial. Quando de repente cessou o canto, quando deixou de ouvi-lo, então ouviu que o chamavam. Do cimo da colinazinha lhe diziam: “Juanito! Juan Dieguito!” Logo se atreveu a ir aonde o chamavam. Nenhuma perturbação passava pelo seu coração, nem coisa alguma o incomodava; muito pelo contrário, sentia-se alegre e contente ao extremo. Subiu a colinazinha para ver de onde o chamavam. Quando chegou ao cume da colinazinha, logo viu uma Donzela que ali estava de pé, a qual lhe chamou a aproximar d’Ela.

Quando chegou diante d’Ela, admirou-se muito da maneira como, incomparavelmente, se avantajava sua perfeita grandeza: seu vestido reluzia como o sol e como que irradiava; a pedra, o rochedo no qual estava de pé, como que lançava raios; Seu resplendor era como de pedras preciosas, à semelhança de um bracelete (nada mais bonito); a terra como que reluzia, como os reflexos do arco-íris no nevoeiro. Os mesquites e os nopales e demais plantinhas que geralmente se encontram por ali, pareciam como esmeraldas. Sua folhagem parecia como turquesa, e seu tronco, seus espinhos e seus frutos reluziam como o ouro.

Prostrou-se em sua presença. Escutou seu alento, sua palavra, que era extremamente glorificadora, sumamente afável, como de quem o atraia e o estimava muito. Disse-lhe: “Escuta, Juanito, o menor de meus filhos. Aonde vais?” Ele lhe respondeu: “Minha Senhora, Rainha, minha Menininha, irei à tua casinha do México, a Tlatelolco, para seguir às coisas de Deus que nos dão e nos ensinam aqueles que são imagens de Nosso Senhor: nossos sacerdotes”.

Dito isto, ela lhe fala e lhe descobre, em seguida, sua preciosa vontade. Disse-lhe: “Fica sabendo e tem por certo, menor de meus filhos, que eu sou a Perfeita Sempre Virgem Santa Maria, Mãe do Verdadeiríssimo Deus, por quem se vive, o Criador dos povos, o Senhor destas terras e de suas imediações, o Senhor do céu e da terra. Muito quero e desejo que aqui ergam para mim minha casinha sagrada, onde o mostrarei e o exaltarei ao manifestá-Lo, onde o darei aos povos com todo meu amor pessoal, meu olhar compassivo, meu auxílio e minha salvação. Porque eu, em verdade, sou vossa mãe compassiva, tua e de todos os moradores desta terra, e de todos os demais povos, que me amem, clamem por mim, me busquem e em mim confiem. Porque ali lhes escutarei seu pranto, sua tristeza, para remediar, para curar todas as suas diferentes penas, suas misérias e suas dores. Para realizar o que pretende meu compassivo olhar misericordioso, vá ao palácio do bispo do México e diga-lhe que eu te enviei, para lhe revelar como desejo muito que aqui me provejam de uma casa e erijam em lugar plano meu templo. Tudo lhe contarás, quanto hás visto e admirado, e o que ouviste. Tem por seguro que muito lhe agradecerei e lho pagarei, que por isto te enriquecerei e te glorificarei; por causa disto, muito merecerás que eu retribua teu cansaço e teu serviço em ires solicitar o assunto para o qual te envio. Ouviste meu alento e palavra, menor dos meus filhos. Vá e ponha nisto todo o teu empenho.”

Imediatamente se prostrou em sua presença e lhe disse: “Minha Senhora, Menina, já vou realizar teu venerável desejo e palavra. Por hora me despeço de Ti, eu, teu pobre indiozinho”. Desceu rapidamente para cumprir sua encomenda, pegou a estrada e foi direto ao México.

Chegando à cidade, dirigiu-se imediatamente ao palácio do bispo, que muito recentemente havia se tornado bispo desta diocese: seu nome era Dom Frei Juan de Zumárraga, frade de São Francisco. Quando chegou, logo comunicou sua intenção de vê-lo e isso suplicou a seus servidores e ajudantes, que foram dizer-lhe. Passado muito tempo, vieram chamá-lo, pois o senhor bispo lhe mandara entrar. Logo ao entrar, ajoelhou-se perante ele e se prostrou, e sem mais, lhe revelou e contou o precioso alento e palavra da Rainha do Céu, sua mensagem e tudo o que admirou, viu e ouviu. Tendo escutado toda sua narração e sua mensagem, este pareceu não lhe dar muito crédito e, respondendo, lhe disse: “Meu filho, vem outro dia e te ouvirei com mais calma, desde o princípio, e considerarei a razão de tua vinda, tua vontade e teu desejo”. Saiu. Caminhava triste porque não se realizou de imediato seu encargo.

Voltou em seguida, ao fim do dia, direto ao cimo da colinazinha, e teve a dita de se encontrar com a Rainha do Céu, exatamente no mesmo lugar onde lhe apareceu a primeira vez. Ela o estava esperando. Quando a viu, prostrou-se em sua presença, lançou-se por terra e lhe disse: “Patroazinha, Senhora, Rainha, menorzinha de minhas filhas, minha Menininha, fui aonde me mandaste a cumprir teu amável alento e palavra; ainda que com dificuldade, entrei no lugar onde estava o bispo, o vi e lhe expus teu alento e palavra, como me mandaste. Recebeu-me amavelmente e escutou perfeitamente, porém, pelo que me respondeu, parece não ter entendido nem acreditado. Disse-me: “Vem outro dia e te escutarei com mais calma, desde o princípio, e verei o motivo de tua vinda, teu desejo e tua vontade”. Olhei-o bem e penso que, segundo me respondeu, pode ser que imagine ser apenas invenção minha a casa que queres que te façam aqui ou que não seja de teus lábios a mensagem. Muito te suplico, Senhora minha, Rainha, minha Menininha, que encarregues a algum dos nobres e estimados, alguém conhecido, respeitado e honrado, para que possa levar com mais crédito teu amável alento e palavra. Porque em verdade não passo de um homem da roça, um barbantinho, uma escadinha de mão, o fim da cauda e uma folha; eu mesmo necessito ser conduzido e levado às costas. Minha Virgenzinha, menor de minhas filhas, Senhora, Menina, o lugar onde me envias não é para eu ir nem permanecer. Por favor, dispensa-me. Minha Senhora, só trarei aflição ao teu rosto e teu coração e irei cair em teu desgosto por frustrar os teus planos.”

Respondeu-lhe a Perfeita Virgem, digna de honra e veneração: “Escuta, menorzinho de meus filhos, e tem por certo que não é escasso o número de meus servidores e mensageiros, a quem poderia encarregar de levar meu alento e palavra para que efetuem minha vontade. Porém, é muito necessário que tu vás pessoalmente e supliques, que por tua intercessão se realize e se cumpra o meu querer e minha vontade. Rogo-te encarecidamente, menor de meus filhos, e te ordeno firmemente que tornes a procurar o bispo amanhã. E, em meu nome, lhe faça saber e ouvir o meu querer e a minha vontade, a fim de que a cumpra e construa o templo que lhe peço. Diga-lhe novamente que eu própria, a Sempre Virgem Santa Maria, eu, que sou a Mãe de Deus, é que te envio”.

Por sua vez, Juan Diego lhe respondeu, dizendo: “Minha Senhora, Rainha, minha Menininha, que eu não angustie teu rosto e teu coração; irei com todo o gosto para cumprir teu alento e palavra; de modo algum deixarei de fazê-lo, nem tenho por incômodo me pôr a caminho. Cumprirei tua vontade. Mas pode ser que não serei ouvido, e, mesmo se o for, talvez não serei crido. Amanhã à tarde, ao pôr do sol, trarei a resposta do bispo à tua palavra e alento. Despeço-me de Ti respeitosamente, Menorzinha de minhas filhas, Jovenzinha, Senhora, minha Menina. Descansa mais um pouquinho.”  Logo, voltou ele para sua casa a fim de descansar.

No dia seguinte, Domingo, bem de madrugada, quando tudo ainda estava escuro, saiu de sua casa e foi direto a Tlatelolco para ser instruído nas coisas divinas e contado entre os fiéis; e poder estar a tempo para ver o senhor bispo. Por volta das dez horas, estava pronto: havia participado da Missa e respondido à chamada, e a multidão já havia se dispersado.  Juan Diego foi imediatamente ao palácio do senhor bispo. Quando chegou, fez toda a luta por vê-lo e, com muito trabalho, o viu mais uma vez. Ajoelhou-se aos seus pés, chorou, falou-lhe com tristeza ao lhe revelar a palavra e alento da Rainha do Céu: que oxalá fosse crida a embaixada, isto é, a vontade da Perfeita Virgem de que se lhe faça e erija sua casinha sagrada, no lugar em que havia dito, onde ela queria.

O senhor bispo lhe perguntou muitíssimas coisas e lhe investigou, para poder se certificar onde a havia visto e como Ela era. Ele lhe contou absolutamente tudo. E ainda que tenha dito tudo, sobre cada coisa que viu e admirou, manifestando com toda claridade que Ela era a Perfeita Virgem, a Amável, Maravilhosa Mãe de Nosso Salvador, Nosso Senhor Jesus Cristo; entretanto, não se podia realizar tal coisa imediatamente. Disse que não somente por sua palavra e petição se faria e se realizaria o que ele pedia; que era muito necessário algum outro sinal para poder ser crido como enviado da própria Rainha do Céu.

Tendo ouvido isso, prontamente disse Juan Diego ao bispo: “Escolha, senhor bispo, qual o sinal que pedirás, porque logo irei pedi-lo à Rainha do Céu que me enviou”. Tendo visto o bispo que ratificava tudo e que em nada vacilava nem duvidava, o despachou logo. Enquanto saía, mandou que alguns de sua casa, nos quais tinha absoluta confiança, o seguissem e observassem aonde ia, a quem via e com quem falava. E assim se fez. Juan Diego partiu direto e tomou a estrada. Os que o seguiam, após cruzarem o barranco perto do Tepeyac, na ponte de madeira, perderam-no de vista. Ainda que o procurassem por todos os lugares, já não puderam mais vê-lo. E assim voltaram. Ficaram com raiva não somente porque se fatigaram grandemente por causa dele, senão também porque não puderam cumprir o objetivo. Foram informar ao senhor bispo: meteram-lhe na cabeça que não acreditasse nele, lhe disseram que não passavam de mentiras o que lhe contara; que era tudo invenção o que lhe vinha dizer e que somente sonhava ou imaginava o que lhe dizia e lhe pedia. Determinaram entre si que, se viesse outra vez, se voltasse, ali mesmo o agarrariam e fortemente o castigariam, para que não voltasse a dizer mentiras nem perturbar o povo.

Enquanto isso, Juan Diego estava com a Santíssima Virgem, dizendo-lhe a resposta que trazia do senhor bispo. A Senhora, após ouvir, disse-lhe: “Está bem, meu filhinho, retornarás aqui amanhã para que leves ao bispo o sinal que te pediu. Com isto acreditará em ti e diante disto já não duvidará nem suspeitará de ti. Fica sabendo, meu filhinho, que eu te pagarei teu cuidado, trabalho e cansaço que há despendido. Vá agora, que amanhã te aguardo aqui.”

No dia seguinte, segunda-feira, quando Juan Diego devia levar algum sinal para ser crido, já não voltou. Porque, quando estava chegando em sua casa, um tio seu, de nome Juan Bernardino, estava gravemente enfermo. Ainda foi chamar o médico, porém já não era tempo, já estava muito grave. Quando anoiteceu, seu tio lhe rogou que ele fosse, ainda de madrugada, quando ainda estivesse escuro, a chamar em Tlatelolco algum sacerdote para atendê-lo em confissão e prepará-lo, porque estava seguro de que já era o tempo e o lugar de morrer, que já não se levantaria e não se curaria.

Terça-feira, sendo todavia muitíssimo noite, pôs-se a sair de sua casa Juan Diego, a chamar o sacerdote em Tlatelolco. Quando passava ao lado da colinazinha que terminava a serra, ao pé de onde sai a estrada, na direção de onde o sol se põe, direção da qual viera antes, disse consigo: “Se eu fosse direto pela estrada, esta Senhora me veria e, seguramente, me deterá para que leve em seu nome o sinal ao bispo, como me ordenou. Que permita primeiro responder à nossa tribulação e chamar de pressa o sacerdote para o meu tio, que o está apenas esperando.” Em seguida, rodeou a colina, subiu por um atalho e, atravessando em direção ao oriente, partiu rapidamente para o México, a fim de que a Rainha do Céu não o detivesse. Acaso pensa que aquela que vê perfeitamente todos os lugares não terá visto por onde deu a volta? Viu-a descer a colina, e que de lá o estava olhando.

Veio-lhe ao encontro, ao lado da colina, veio-lhe atar os passos e lhe disse: “Que se passa, menorzinho de meus filhos? Aonde vais, para onde te diriges?” E ele? Talvez tenha se apiedado um pouco ou quem sabe se envergonhou? Será que se assustou ou ficou com medo? Prostrou-se em sua presença, saudou-a e lhe disse: “Minha Jovenzinha, Menorzinha de minhas filhas, minha Menina, espero que estejas bem. Como amanheceste? Teu amado corpinho se sente bem, Senhora minha, minha Menina? Infelizmente angustiarei teu rosto e teu coração: faço-te saber, minha Menininha, que um servidor teu, meu tio, está muito doente. Abateu-se sobre ele uma grande enfermidade e asseguro que em breve irá morrer. Vou de pressa à tua casinha no México para chamar algum dos amados de Nosso Senhor, um de nossos sacerdotes, para que vá confessá-lo e preparar-lhe. Porque em verdade nascemos para isto e viemos a este mundo para esperar o trabalho de nossa morte. Mas, se agora vou fazer isso, logo virei aqui outra vez para levar teu alento e palavra, Senhora, minha Jovenzinha. Rogo-te que me perdoes e tenha, todavia, um pouco de paciência, porque não estou te enganando. Menor de minhas filhas, minha Menina, virei amanhã sem falta, com toda a pressa.”

Após ouvir as razões de Juan Diego, respondeu-lhe a Piedosa e Perfeita Virgem: “Escuta e põe em teu coração, menor de meus filhos, pois não é nada o que te assusta e aflige. Não se perturbe teu rosto e teu coração, e não temas esta enfermidade nem enfermidade alguma ou qualquer angústia ou aflição. Não estou eu aqui, que sou a tua mãe? Não estás debaixo de minha sombra e proteção? Não sou eu a fonte de tua alegria? Não estás sob o meu manto e envolto em meus braços? Tens necessidade ainda de outra coisa? Que nada te aflija ou te perturbe. Que não te angustie a enfermidade de teu tio, porque ele não morrerá por causa dela. Não tenhas dúvidas de que já está bom.” (Naquele mesmo momento seu tio ficou curado, como se soube depois).

Após ouvir a amável palavra e alento da Rainha do Céu, Juan Diego se consolou muitíssimo e apaziguou seu coração, e lhe suplicou que o mandasse imediatamente ao senhor bispo para levar-lhe algum sinal de comprovação, a fim de que creia. A Rainha Celestial lhe ordenou que subisse ao cimo da colinazinha, onde a tinha visto antes. Disse-lhe: “Sobe, menor de meus filhos, ao cimo da colinazinha, onde me viste e te dei ordens. Ali verás variadas flores: corta-as, reúne-as e ponha-as todas juntas; e desça aqui para trazê-las à minha presença.”

Juan Diego subiu logo a colinazinha. Quando chegou ao cimo, admirou-se muito da quantidade de flores, as mais variadas: florescidas e desabrochadas, belas e formosas. Todavia, não era tempo, já que naquela estação se esperava pela geada. Difundiam um perfume suavíssimo e estavam cheias do orvalho noturno, como de pérolas preciosas. Começou então a cortá-las, juntando-as todas e as pondo em sua tilma. Com certeza, no cimo da colinazinha nunca nasceram flores, mas somente abundavam rochedos, cardos, espinhos, nopales e mesquites, Mesmo se alguma plantinha ali pudesse nascer, era o mês de dezembro, no qual todo o cimo é coberto pela geada.

Desceu então e foi levar à Menina Celestial as diferentes flores que tinha cortado. Tendo-as visto, as tomou com suas veneráveis mãos, uniu-as novamente e as pôs dentro do seu manto, dizendo-lhe: “Menor dos meus filhinhos, estas diversas flores são a prova e sinal que levarás ao bispo. Dirás em meu nome que veja nelas meu desejo e que realize meu querer e minha vontade. E tu… tu que és meu mensageiro…, em ti absolutamente se deposita a confiança. Ordeno-te firmemente que a ninguém a mostres, mas apenas na presença do bispo estenda teu manto e lhe comunique o que levas. Contarás ponto por ponto e lhe dirás que te mandei subir ao cimo da colinazinha a cortar flores, e sobre cada coisa que viste e admiraste, a fim de que possas convencer ao senhor bispo e este ponha todo seu esforço em erguer meu templo que lhe pedi.”

Após este mandato da Rainha Celestial, tomou a estrada, direto ao México, caminhando feliz. Ia com o coração sossegado, porque iria sair-se bem e cumpriria perfeitamente sua missão. Cuidava muito para que não se perdesse nada daquilo que trazia em seu manto. Vinha desfrutando o aroma das diversas e preciosas flores.

Quando chegou ao palácio do bispo, foram ao seu encontro o porteiro e demais servidores do senhor bispo. Suplicou-lhes que lhe dissessem que desejava vê-lo, porém ninguém o quis fazer. Fingiam não o entender ou, talvez, faziam-no esperar porque ainda estava muito escuro ou, quem sabe, porque sabiam como lhes incomodava e importunava, e as coisas que lhes haviam contado seus companheiros que o perderam de vista quando o seguiram.

Ficou esperando muitíssimo tempo. Quando viram que esteve ali muitíssimo tempo de pé, cabisbaixo, sem fazer nada, como se fosse chamado, e que trazia algo em seu manto; aproximaram-se para ver o que trazia e fazê-lo perder a esperança. Ao ver Juan Diego que não poderia de modo algum lhes ocultar o que levava e que o perturbariam, o empurrariam ou, quem sabe, o golpeariam, mostrou-lhes um pouquinho que eram flores. Ao ver que eram todas flores belas e variadas, fora de estação, admiraram-se muitíssimo de seu frescor, de seu desabrochar, do seu perfume e de sua beleza. Quiseram colher e retirar algumas. Três vezes se atreveram a colhê-las, porém não o puderam fazer de modo algum, porque, quando tentavam fazê-lo, já não podiam ver as flores, que pareciam estar pintadas ou bordadas ou cosidas na tilma. Foram imediatamente dizer ao senhor bispo o que haviam visto, como desejava vê-lo o indiozinho que outras vezes havia vindo, e que já estava ali há muitíssimo tempo aguardando a permissão, porque queria vê-lo.

O senhor bispo, tendo ouvido isto, deu-se conta de que aquilo era a prova para convencê-lo, a fim de pôr em obra o que solicitava o homenzinho. Deu ordem então para que o fizessem entrar. Após entrar, prostrou-se em sua presença, como já antes o havia feito. Contou-lhe novamente o que havia visto e admirado e sua mensagem. Disse-lhe: “Meu senhor bispo, já fiz e levei a cabo o que me mandaste. Fui dizer à minha Senhora Donzela, a Menina Celestial, Santa Maria, a Amada Mãe de Deus, que pedias uma prova para poder crer-me e fazer sua casinha sagrada, no lugar que ela pediu para erguê-lo. Disse-lhe também que te havia dado minha palavra de que lhe traria um sinal e alguma prova de sua vontade, como me encarregaste. Ela escutou bem teu alento e palavra e recebeu com agrado tua petição do sinal e prova para que se faça e se verifique sua amada vontade. Hoje, quando era ainda de noite, me mandou te ver outra vez. Pedi-lhe a prova para ser crido, segundo me dissera dar, e imediatamente o cumpriu. Mandou-me ao cimo da colinazinha, onde antes a havia visto, para ali cortar diversas rosas de Castela. Depois de cortá-las, fui levá-las lá embaixo, e as tomou com suas santas mãos e novamente as colocou no meu manto, para que as trouxesse a ti, para que pessoalmente as desse a ti. Sabia muito bem que lá no cimo da colinazinha não era lugar de flores, mas tão somente abundância de rochedos, cardos, huizaches, nopales e mesquites; mas nem por isso duvidei nem vacilei. Ao chegar ao cimo da colinazinha, vi que era já o paraíso. Estavam ali tão perfeitas todas as diversas flores preciosas, do que há de mais belo, cheias de orvalho, esplendorosas; de modo que logo as fui cortar. Disse-me que as desse a ti em seu nome, e que deste modo eu provaria o que disse e que verias o sinal que lhe pedias para realizar sua amada vontade. Para mostrar que é verdade a minha palavra e mensagem, aqui as tens. Por favor, as receba.”

Então estendeu sua tilma branca, na qual havia colocado as flores. Ao caírem ao chão todas as variadas flores preciosas, logo se converteram ali em sinal e apareceu de repente a Amada Imagem da Perfeita Virgem Santa Maria, Mãe de Deus, na forma e figura em que está agora,  onde é conservada em sua amada casinha, em sua sagrada casinha no Tepeyac, que se chama Guadalupe.

Ao verem-na o senhor bispo e todos os que ali estavam, ajoelharam-se e muito a admiraram. Puseram-se de pé para vê-la e se entristeceram, se afligiram, com o coração e o pensamento suspensos… O senhor bispo, com pranto e tristeza, rogou e pediu-lhe perdão por não ter realizado logo sua vontade, seu venerável alento e palavra. Ao pôr-se de pé, desamarrou do pescoço de Juan Diego a tilma, na qual apareceu e onde se converteu em sinal a Rainha Celestial. Levou-a consigo e a colocou em seu oratório. O bispo reteve Juan Diego em sua casa mais um dia e, no dia seguinte, lhe disse: “Anda, mostra-nos o lugar onde é vontade da Rainha do Céu que lhe ergamos seu templo”. De imediato foram convidadas pessoas para construí-lo.

Juan Diego, após mostrar onde a Senhora do Céu havia mandado que se erigisse sua casinha sagrada, pediu licença, pois queria ir a sua casa para ver seu tio Juan Bernardino, que estava muito doente quando o deixou para ir chamar um sacerdote em Tlatelolco para o confessar e o dispor, e de quem a Rainha do Céu dissera que já estava curado. Porém, não o deixaram ir sozinho, mas o acompanharam até sua casa.

Ao chegar, viram que seu tio estava curado e que nada absolutamente lhe doía. Ele, por sua vez, muito se admirou da forma como seu sobrinho era acompanhado e muito honrado. Perguntou a seu sobrinho por que assim sucedia e por que muito o honravam. Ele lhe disse que, quando o deixou para ir chamar um sacerdote para o confessar e dispor, lá no Tepeyac lhe apareceu a Senhora do Céu, e o mandou ao México para ver o senhor bispo, a fim de que ali lhe fizessem uma casa no Tepeyac. E que lhe disse para não se afligir, pois seu tio já estava bem; o que muito o consolou.

Disse-lhe seu tio que isto era certo e que naquele precioso momento o curou, e a viu exatamente na mesma forma em que havia aparecido a seu sobrinho e como o enviara também ao México para ver o bispo e lhe revelar e dizer absolutamente o que havia visto e a maneira maravilhosa como o havia curado, e que Sua Amada Imagem assim seria chamada e nomeada: a Perfeita Virgem Santa Maria de Guadalupe.

Então trouxeram Juan Bernardino à presença do senhor bispo, para lhe falar e dar testemunho. O bispo o hospedou junto com seu sobrinho Juan Diego vários dias em sua casa, até que se ergueu a casinha sagrada da Menina Rainha lá no Tepeyac, onde se fizera ver por Juan Diego.

O senhor bispo transladou a amada Imagem da Amada Menina Celestial para a Igreja Maior. Tirou-a de seu palácio e de seu oratório onde estava, para que todos a vissem e admirassem sua amada Imagem. Absolutamente toda a cidade, sem faltar ninguém, se emocionou ao ver e admirar sua preciosa Imagem. Vinham reconhecer seu caráter divino. Vinham lhe apresentar suas orações. Muito admiraram a maneira milagrosa como apareceu, posto que absolutamente nenhum homem da terra pintou sua amada Imagem.

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