Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Sermão pela Purificação da Virgem Maria

PRIMEIRO SERMÃO PELO DIA DA PURIFICAÇÃO* DA SANTÍSSIMA VIRGEM MARIA: Das três misericórdias.

São Bernardo de Claraval

1. No dia de hoje, uma virgem mãe está levando o Senhor do templo ao templo do Senhor, e José vem a oferecer a Deus, não o seu próprio filho, mas o mesmo Filho de Deus, em quem o Pai colocou toda as suas complacências. Simeão, o justo, reconhece aquele a quem esperava; Ana, a viúva, o confessa. Estas quatro pessoas são os primeiros a celebrar, neste dia, uma procissão que deveria ser objeto de uma festa alegre, um banquete para todos os povos da terra e em todas as partes do mundo. Não vos surpreendais se esta procissão for pequena: Ele, que era o objeto, era tão pequeno! Mas em suas fileiras não havia lugar para um único pecador, aqueles que o compunham eram todos justos, santos e perfeitos. Mas Senhor, Vós salvareis apenas aqueles? Vós crescereis e vossa compaixão crescerá também, e quando vossa misericórdia se multiplicar, Vós não salvareis apenas homens, Senhor Deus, Vós salvareis os próprios animais. Em uma segunda procissão, o Salvador caminha precedido e seguido pela multidão, mas agora já não é mais uma virgem, e sim um burro a carregá-Lo. Ele não despreza ninguém, nem mesmo aqueles que se corromperam, como animais que apodrecem em seus próprios dejetos; não, Ele não rejeita ninguém, mas com a condição de que tenhamos as vestes dos apóstolos, que estejamos imbuídos de sua doutrina; se somos de moralidade pura, se a obediência nos unir à caridade, que cobre uma multidão de pecados, então seremos julgados dignos da honra de seguir sua procissão. Eu vou mais longe e considero que essa procissão em si, que parece ter admitido poucas pessoas, também é reservada para nós. E por que Ele não teria reservado, para a posteridade, a honra que ele concedeu aos nossos antecessores?

2. Davi, o profeta rei, ansiosamente desejava ver este dia, e ele viu, e ficou cheio de alegria (São João VIII, 56); pois, se ele não tivesse visto isso, como ele poderia ter dito em suas canções: “Recebemos, ó meu Deus, a tua misericórdia no meio do teu templo” (Salmos XLVII, 10)? Essa misericórdia do Senhor Davi a recebeu, Simeão a recebeu, nós mesmos, e quem está predestinado para a vida eterna a recebeu; pois “Jesus era ontem, é hoje e será amanhã” (Hebreus XIII, 8). Além disso, não é em um canto, mas no meio do templo que tal misericórdia se encontra, uma vez que não há em Deus acepção de pessoas. Ela é assim colocada em comum, é oferecida a todos os homens, e ninguém é privado dela, exceto aquele que se recusa a dela tomar parte. As águas da vossa misericórdia estão espalhadas para o exterior, Senhor Deus, a fonte pertencerá a somente a Vós e os estrangeiros não podem tirar dela para beber (cf. Provérbios V, 16-17). Quem quer que seja vosso não conhecerá a morte até que tenha visto o Ungido do Senhor antes, para que possa morrer em paz e segurança. E por que não deveria morrer em paz, quem tem o Ungido do Senhor em seu coração? Não é Ele mesmo a vossa paz, que pela fé habita em nossas almas? Mas tu, ó alma infeliz, tu que não conheces Jesus para lhe mostrar o caminho, como tu podes sair deste mundo? Pois há alguns que não conhecem Deus. Como tal coisa se dá? Porque a luz veio ao mundo, os homens preferiram a escuridão à luz. O Evangelista diz: “A luz brilha na escuridão, e a escuridão não a compreendeu” (São João I ,5). É como se ele tivesse dito: As águas da vossa misericórdia estão espalhadas sobre lugares públicos, mas nenhum estranho as bebe; então sua misericórdia está no meio do templo, mas nenhum daqueles que esperam a condenação eterna se aproxima dela. Ó homens infelizes, no meio de vós está Aquele que não conheceis, e porque morrereis antes de terdes visto o Ungido do Senhor, não podereis ir em paz: sereis, ao contrário, tratados com violência por leões a rugir, prontos para devorar-vos.

3. “Senhor Deus, recebemos a tua misericórdia no meio do teu templo” (Salmo LXVII, 10). Que palavra de gratidão diferente deste brado: “Tua misericórdia, ó meu Deus, chega ao céu e sua verdade até às nuvens (Salmos XXXV, 6)! ” Como, de fato, considerais que a misericórdia estava no meio do templo enquanto se encontrava apenas no meio dos espíritos celestes? Quando Cristo foi colocado um pouco abaixo dos anjos, e tornou-se um mediador entre os homens e Deus, pelo seu sangue, Ele pacificou e uniu, como a pedra angular, as coisas do céu e as da terra, e assim podemos dizer que foi então que recebemos tua misericórdia, ó meu Deus, no meio do teu templo. Nós fomos filhos da ira antes, mas obtivemos piedade. De que ira éramos filhos, e que piedade recebemos? Nós fomos filhos da ignorância, covardia e servidão, e a misericórdia que recebemos é uma misericórdia de sabedoria, força e redenção. A ignorância da primeira mulher que a serpente havia seduzido nos cegou; A fraqueza do primeiro homem atraído, impulsionada por sua própria concupiscência, nos irritou; a maldade do diabo à qual por Deus fomos justamente expostos, nos reduziu à escravidão. Este é o estado em que todos nós chegamos ao mundo. Além disso, em primeiro lugar, somos completamente ignorantes do caminho que conduz à Cidade Sagrada que deve ser nossa habitação; mas então, somos tão fracos e tão covardes, que ao conhecermos o caminho que leva à vida, somos mantidos no mesmo lugar e impedidos de segui-lo por nossa própria covardia. Finalmente, somos reduzidos à escravidão por um tirano tão ruim e tão cruel que, mesmo que conhecêssemos e caminhássemos pelo caminho da vida, seríamos impedidos pelo peso irresistível de nossa infeliz servidão. Não vos parece que uma tal miséria precisa de compaixão e misericórdia excessivas? Mas se já fomos salvos dessa tripla ira por meio de “Jesus Cristo, o qual foi feito por Deus sabedoria, para nós, e justiça e santificação e redenção”(I Coríntios I, 30), o quão vigilantes não devemos ser, meus amados irmãos, para que nosso fim não se torne pior do que o nosso princípio? Que Deus nos preserve desse infortúnio, porque cairemos de novo na cólera, e assim seremos novamente filhos da ira, não só por efeito de nossa natureza, mas como resultado de nossa própria vontade!

4. Abracemos então a misericórdia que recebemos no meio do templo, e não nos afastemos do templo, tal como a Beata Ana não se afastou ela própria. “Porque o templo de Deus é santo, mas este templo não é outro senão vós mesmos” (I Coríntios III, 17), diz o apóstolo. Portanto, esta misericórdia não está longe de vós, a Palavra de Deus não está longe de vós, está na vossa boca, em vosso coração (cf. Romanos X, 8). Além disso, Cristo habita em vossos corações pela fé, tal é o seu templo, o qual é o seu trono; pois eu não creio que vós esquecestes essas palavras: “A alma do justo é o trono da sabedoria” [1]. Além disso, se há uma coisa que eu quero muitas vezes lembrar aos meus irmãos, quero lembrá-los sempre, e pedir-lhes instantemente é que estando na carne, não vivamos segundo a carne, se não quisermos desagradar a Deus. Não sejamos amigos deste século, se não quisermos ser inimigos de Deus. Resistamos também ao diabo, e ele se afastará de nós, e nos deixará andar livremente segundo o espírito e viver em nosso coração. Além disso, o corpo, que se corrompe, enerva e efemina a alma, e esta habitação de barro oprime a mente com uma multidão de cuidados que a ela ocupam, e impedem que ela se eleva às coisas do céu (cf. Sabedoria IX, 15). É por isso que a sabedoria deste mundo é chamada de loucura para Deus, e aquele que se deixa conquistar pelo maligno é abandonado a ele na escravidão. Mas é no coração que recebemos misericórdia, é no coração que Jesus Cristo habita, é finalmente no coração que fala de paz ao seu povo, aos seus santos, a esses ao quais, em uma palavra, adentra em seus corações.

* Em 2 de fevereiro, a Santa Igreja celebra a Festa da Purificação da Virgem Maria, instituída em lembrança do dia em que ela foi ao templo de Jerusalém, a fim de ali cumprir a lei da purificação e ali apresentar o seu divino Filho Jesus Cristo.

[1] Esta frase é citada como sendo da Sagrada Escritura por vários Padres, dentre outros, por São Gregório Magno. Vamos encontrá-la novamente sob a pena de São Bernardo, em seu sermão XXVII sobre o Cântico dos Cânticos, onde podemos consultar as notas dadas a ela à época por Horstius.

Texto traduzido por Ludmilla Oliveira, a partir da versão francesa disponível em <http://www.clerus.org/bibliaclerusonline/pt/kwu.htm#d0>. Revisado por Leonardo Brum.

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