Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Sermão 293 C, sobre a Natividade de S. João Batista

A Natividade de São João Batista, por Rogier van der Weyden

Santo Agostinho

1. Na Igreja de Cristo, difundida por toda a parte, celebra-se hoje o nascimento de João Batista, o amigo do esposo [1] e precursor do Senhor. Nesta solenidade, eu vos devo um sermão, vós me deveis atenção e todos devemos devoção. Entre os nascidos das mulheres não veio ao mundo outro maior que João Batista [2]; somente o antecede quem o criou. Algo maravilhoso aconteceu: que tenha precedido no nascer Àquele sem cuja obra de nenhum modo ele teria podido nascer. Com razão é João a voz e Cristo a Palavra, pois aquele disse: eu sou a voz do que clama no deserto [3], enquanto que deste foi dito: no princípio existia a Palavra [4]. Algo parecido acontece em nossas palavras, ainda que muito distintas. A palavra nasce na mente onde se dirige a voz daquele que fala; a voz se profere pela boca, mediante a qual se manifesta a palavra aos ouvintes. Da mesma maneira Cristo permaneceu no Pai, por quem foi criado João, assim como as demais coisas; de uma mãe procedeu João, por quem todos conheceram Cristo. Este é a Palavra que existe no princípio antes do mundo; aquele é a voz que aparece ao final, antes da palavra. A palavra se profere depois de entendida; a voz, depois do silêncio; assim, Maria acreditou ao gerar Cristo, Zacarias emudeceu quando ia gerar João. Ademais, Cristo nasceu de uma jovenzinha na flor da idade; João, de uma anciã em declive: a palavra se multiplica na mente daquele que pensa, a voz fenece no ouvido de quem a ouve. Talvez se refiram também a isto as palavras: Convém que ele cresça e eu diminua [5], pois todos os anúncios da lei e os profetas enviados antes de Cristo, qual voz ante a palavra, chegam até João [6], em quem cessaram já as últimas figuras; a partir de então frutifica e cresce em todo o mundo a graça do Evangelho e a pregação manifesta do Reino dos Céus, que não terá fim.

2. Isto nos indicaram os respectivos nascimentos e paixões de João e de Cristo. Com efeito, João nasceu quando os dias começam a se encurtar, e Cristo quando começam a alongar-se. Essa diminuição restou significada na decapitação, e este crescimento, na elevação sobre a cruz. Há, ademais, outra forma de entendê-lo um tanto mais oculta, que o Senhor abre a aqueles que clamam, referente a como se deve entender o que João disse de Cristo: Convém que em cresça e que eu, em contrapartida, diminua [7]. O máximo da justiça humana que pode realizar um homem fez-se realidade em João, posto que é dele que diz a Verdade: Entre os nascidos das mulheres não veio ao mundo outro maior que João Batista [8]. Nenhum homem, portanto, pode superá-lo; mas ele é somente homem; Cristo, por outro lado, é Deus e homem. Posto que o primeira coisa que interessa e se aprende na graça cristã é que ninguém se glorie no homem, antes bem que quem se glorie, glorie-se no Senhor [9], o homem disse de Deus, o servo de seu Senhor: Convém que ele cresça e que eu, em contrapartida, diminua. Deus, certamente, nem diminui nem aumenta em si mesmo; mas quanto mais e mais progredimos na verdadeira piedade, tanto mais cresce a graça divina nos homens e diminui o poder humano, até que o templo de Deus, formado por todos os membros de Cristo, seja conduzido àquela perfeição na qual, aniquilado todo principado, todo poder e toda força, seja Deus tudo em todas as coisas [10]. Disse João, o Evangelista: Era a luz verdadeira que ilumina todo o homem que vem a este mundo [11]; disse este João, o Batista: Todos nós participamos de sua plenitude [12]. Assim, pois, quando a luz, que em si permanece sempre inteira, aumenta em quem é iluminado, este diminui em si mesmo quando desaparece aquilo que era sem Deus. Sem Deus, o homem não pode fazer outra coisa que não seja pecar; em consequência, mingua o poder humano quando prevalece a graça divina, demolidora do pecado. A debilidade da criatura cede diante da força do criador, e a soberba do amor privado perece, transformando-se em amor público, ao gritar João desde nossa miséria a propósito da misericórdia de Cristo: Convém que ele cresça e que eu, em contrapartida, diminua.



Notas:
1. São João III, 29
2. São Mateus XI, 11
3. São João I, 23
4. São João I, 1
5. São João III, 30
6. São Lucas XVI, 16
7. São João III, 30
8. São Mateus XI, 11
9. II Coríntios X, 17
10. I Coríntios XV, 28
11. São João I, 9
12. São João I, 16


Traduzido por Leonardo Brum a partir da versão espanhola de Pío de Luís Vizcaíno, OSA, disponível em <http://www.augustinus.it/spagnolo/discorsi/discorso_410_testo.htm>

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