Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Sermão 205 – O significado da Quaresma

Santo Agostinho

1. Nesta data, iniciamos a observância da Quaresma, que, mais uma vez, é apresentada com a solenidade habitual. É meu dever dirigir-vos uma exortação igualmente solene, para que a palavra de Deus, servida por nosso ministério, nutra o coração daqueles que estão indo jejuar fisicamente. Deste modo, o homem interior, revigorado pelo alimento que lhe é próprio, será capaz de levar a cabo e manter com força a mortificação do exterior. Cabe à nossa devoção que aqueles de nós que vão celebrar a Paixão, já próxima, do Senhor crucificado, façamos também uma cruz que consiste em refrear os prazeres da carne, segundo as palavras do Apóstolo: Aqueles que são de Jesus Cristo crucificaram a carne com suas paixões e concupiscências [1]. O cristão deve permanecer pendendo desta cruz durante toda essa vida que transcorre em meio às tentações. Não há tempo nesta vida para arrancar os cravos dos quais se dizem no salmo: transpassa minha carne com os cravos do teu temor [2]. A carne é aqui equivalente à concupiscência carnal; os cravos são os preceitos da justiça; com eles, ele crava-se na carne o temor de Deus, que nos crucifica como hóstia aceitável para Ele. É por isso que o apóstolo diz: Imploro-lhes, portanto, irmãos, pela misericórdia de Deus, que ofereçam os vossos corpos como uma hóstia viva e santa, aceitável a Deus [3]. Esta é uma cruz na qual o servo de Deus não apenas não se sente confuso, mas também até se gloria, dizendo: Longe esteja de mim gloriar-se em outra coisa senão na cruz de Nosso Senhor Jesus Cristo, por quem o mundo está crucificado para mim e eu para o mundo [4]. Esta cruz — eu digo — não dura apenas quarenta dias, mas a totalidade desta vida, simbolizada no número místico destes quarenta dias, seja porque, segundo a opinião de alguns, o homem que tem que vir ao mundo é formado no seio maternal no espaço de quarenta dias, ou porque os quatro evangelhos estão de acordo com os dez mandamentos, e a multiplicação de ambos os números dá aquele outro, manifestando assim que ambas as Escrituras são necessárias nesta vida; seja, finalmente, por qualquer outro motivo, mais provavelmente, que se possa encontrar noutra mente melhor e com mais luzes. Esta é a razão pela qual Moisés e Elias e o próprio Senhor jejuaram por quarenta dias: para nos fazer entender que em Moisés, Elias e no próprio Cristo, isto é, na lei, nos profetas e no Evangelho, estamos no centro das atenções, para que não nos acomodemos e adiramos a este mundo, mas que crucifiquemos o velho homem, não nos entreguemos à glutonaria e embriaguez, a desonestidades e  imundícies, a contendas ou invejas, mas revestindo-nos do Senhor Jesus, a despeito da carne e seus apetites [5] . Cristão, vive sempre assim neste mundo. Se não queres afundar teus passos na lama da terra, não desça dessa cruz. Mas se isto há de ser feito ao longo de toda a vida, quanto mais nestes dias de Quaresma, em que não apenas se vive, mas esta vida é simbolizada!

2. Nos dias restantes deveis assegurar que vossos corações não estão sobrecarregados com a devassidão e o vinho [6]; nestes, jejuai também. Nos outros dias, não deveis cair em adultério, fornicação ou qualquer outra corrupção ilícita; nestes abstende-vos também de vossas mulheres. Aquilo que economizais com o seu jejum, acrescente à esmola a ser dada. O tempo que se empregava no cumprimento do dever conjugal, dedicai à oração. O corpo que se desfazia com afetos carnais, prostre-se em pura atitude de súplica. As mãos que estavam entrelaçadas em abraços, estendam-se em oração. E vós que jejuais também outros dias, aumenta nestes o que já vindes a fazer. Aqueles que diariamente crucificam o corpo com continência perpétua, estes dias unam-se ao seu Deus com orações mais frequentes e intensas. Vivei todas em concordância, possuí toda a fé e fidelidade, suspirando nesta peregrinação pelo desejo daquela pátria e fervorosos em seu amor. Que ninguém inveje no outro o dom de Deus do qual não possua ou dele zombe. Quanto aos bens espirituais, considera teu o que amas no irmão e ele considere seu o que ele ama em ti. Que ninguém, sob um manto de abstinência, pretenda mudar antes de parar os prazeres, buscando, por exemplo, manjares caros porque não se come carne, ou licores raros porque não se bebe vinho, que não aconteça que a desculpa para domar a carne sirva para aumentar o prazer. Todos os alimentos são indubitavelmente puros para os puros [7], mas em nenhum deles o excesso é puro.

3. Primeiro de tudo, irmãos, jejuai de disputas e discórdia. Lembrem-se do profeta que reprovava alguns, dizendo: Nos dias de vosso jejum, vossas vontades se manifestam, uma vez que cravais a lança àqueles sob seu jugo e os golpeia com punhos; vossa voz é ouvida no choro [8], etc. Dito isso, acrescentou: Este não é o jejum que elegi, diz o Senhor [9]. Se quereis gritar, repeti o grito do qual está escrito: Com minha voz clamei ao Senhor [10]. Não é um grito de luta, mas de caridade; não da carne, mas do coração. Não é aquele que diz: Esperava que cumprisse a justiça e, em vez disso, operou a iniquidade; esperava a justiça, mas só houve clamor [11] . Perdoai e sereis perdoados; dai, e vos será dado [12]. Estas são as duas asas de oração com as quais se voa para Deus: perdoar o culpado pelo seu crime e doar aos necessitados.


Notas:

[1] Gálatas V, 24.

[2] Salmos CXVIII,120.

[3] Romanos XII, 1.

[4] Gálatas VI, 14.

[5] Cf. Romanos XIII, 13-14.

[6] Cf. São Lucas XXI, 34.

[7] Cf. Tito I, 5.

[8] Isaías LVIII, 3-4.

[9] Isaías LVIII, 5.

[10] Salmos CXLI, 2.

[11] Isaías V, 7.

[12]  São Lucas VI, 37-38.


Traduzido por Leonardo Brum a partir da versão espanhola disponível em <http://www.augustinus.it/spagnolo/discorsi/discorso_261_testo.htm>.

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