Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Paralipômenos

Jackson de Figueiredo

Certas horas, imaginando a íntima angústia que deve morder o coração do conselheiro Ruy Barbosa, penso que ele é maior e mais digno dos mártires da nossa gloriosa democracia.

Não poderá ele dizer como S. Bernardo: “Je suis comme la chimère de mon siècle?”

Foi ele próprio, ao que se diz, o criador, o consolidador do espírito democrático brasileiro, foi ele, por assim dizer, se bem que de modo indireto, o criador da República, e, neste ponto, digno mesmo de adoração, como autêntico criador, pois ninguém pode negar, à primeira vista, isto é, após a leitura de qualquer das suas revelações ao povo escolhido, que é bem maior que a coisa criada…

E daí a sua singularidade, porque transportou para o domínio político uma característica do Criador Supremo, e até então desconhecida na história dos homens, pois é certo que, de Lycurgo a Washington, o que tem caracterizado o gênio político é a sua inferioridade em relação à obra realizada. 

Ora, ninguém talvez poderá aquilatar do desgosto de s. ex. ouvindo dez vezes ao ano, pelo menos, que “é o maior gênio do mundo”, a maior cabeça pensante de todos os séculos, desafiadora mesmo dos séculos a vir… o que, dado o número e a grandeza dos gênios, que têm honrado outras nações, de reconhecida maior grandeza que a nossa, equivale dizer em resumo: o conselheiro Ruy Barbosa é maior que a nação brasileira, maior que o povo em cujo seio nasceu. 

O que, por lembrança de um senador (que não é, aliás, qualquer espécie de senador, pois, ao lado do próprio conselheiro, é o único que tem a imortalidade das letras) o que, por lembrança de um senador, digo, se encaminha agora no Senado para uma grande vitória, é a prova mesmo de que o conselheiro Ruy Barbosa não cabe mais dentro das leis do seu país, leis que ele próprio fez, e que em toda a parte são a expressão mais alta do caráter e da inteligência de um povo. 

A maldade humana, porém, nunca adormece, e ela, que tanto tem combatido a Águia de Haia (notem que não se diz: do Brasil) é bem capaz de dizer ao futuro que foi propositadamente que assim engendrou s. ex. leis que jamais pudessem ficar à mesma altura da sua assombrosa cabeça.

Mas é aqui que deve principiar o trabalho dos cronistas de “coisas omissas”, e é bem possível que a recordação de alguns fatos, aparentemente sem importância, possa concorrer para melhor esclarecimento da história do Brasil republicano, e até assegure ao conselheiro Ruy Barbosa defesa, ante os séculos, de acusações como essa que venha de anunciar.

É, de fato, assombroso que uma nação inteira, política e socialmente falando, proteste de todos os modos a sua inferioridade ante um dos seus filhos, e não é possível negar que é o que se passa entre a nação brasileira e o autor das “Cartas da Inglaterra”.

Mas não será pura aparência tudo quanto temos visto nesse mundo à parte de nossa vida, que é o mundo das nossas relações, das relações entre o povo brasileiro e o conselheiro Ruy Barbosa?

É o que, positivamente, me parece, e estou convicto de que o próprio conselheiro assim pensa. Senão vejamos…

O domínio das coisas humanas, em toda a sua extensão, tem dois aspectos, ou melhor, se revela em duas ordens: a ordem intelectual e ordem prática.

Na primeira, desde a imaginação até o puro raciocínio, revolvem o mundo das hipóteses, levantam, sobre dados imutáveis, soberbas construções lógicas, fazem a poesia e a geometria da vida, apontam o que seria possível de belo e de verdadeiro na existência dos homens. Na segunda, a razão verificadora também aparece, mas a serviço do caráter, consignando o que de moralmente bom e útil se pode aproveitar de todo contato entre a vida puramente intelectual do homem e as coisas sobre que exerce esta sua atividade. 

Ora, o próprio conselheiro Ruy Barbosa não ousará negar que os políticos brasileiros fazem parte da nação que por eles se têm deixado guiar; o próprio conselheiro Ruy Barbosa também sabe que a ordem prática na vida de uma nação está entregue ao critério dos seus políticos, e tem assim, o conselheiro a sua melhor defesa, quanto às intenções com que legislou, na confissão de que esses políticos e, por conseguinte, a nação, que os respeita, tudo lhe têm dado, é verdade, todos os direitos até os mais absurdos, na ordem intelectual da nossa vida, mas, até agora, pouco quase nada na ordem propriamente prática.

Porque – como perguntaria Pascal – que é o número diante do infinito?

Na ordem prática brasileira o que representa o infinito, digamos claramente, é a presidência da República, e é triste dizer (isto é: eu acho triste) que o conselheiro Ruy Barbosa, sinal de infinito das nossas aspirações intelectuais, jamais pôde encontrar, da parte dos nossos políticos, a boa vontade com que seria possível que se harmonizasse com o mesmo sinal na ordem prática.

O porquê dessa teimosia dos nossos dirigentes é que eu quisera saber, ouvir de qualquer deles, dos mesmos, por exemplo, que agora lhe querem dar aquela consolação de honras de chefe de Estado, etc.

Não venho lembrar aqui algumas confessadas amarguras de Chateaubriand, mas o fato é que o singular propósito do Senado, neste momento, pode tomar duas feições aos olhos de quem medita as “coisas omissas” da nossa historiazinha republicana… Primeiramente, parece que se quer demonstrar ao próprio conselheiro Ruy Barbosa a inferioridade das leis que não só criou como tem comentado e esclarecido de todos os modos. Em segundo lugar – e é o que horroriza – parece haver ali uma verdadeira cilada: como que se quer deixar ver bem claro que é coisa assentada, já de todo passada em julgado, que o conselheiro Ruy Barbosa não subirá nunca à presidência da República. E, para consolo do seu frio, dão-lhe um manto parecido com aquele de que se reveste quem está sentado na cadeira…

Não ajuízo, com segurança, de nada disto.

Consignei estas “coisas omissas” pelos cronistas da atualidade, e quisera ouvir, sobre elas, a opinião dos doutos, antes mesmo da resposta definitiva do conselheiro aos que assim, tão brilhantemente, querem amortalhar a sua real grandeza que, tudo me leva a crer, não precisa ser legalizada. 

A linguagem usada para com ela é, não resta dúvida, semelhante à do próprio Davi ao Criador: “Tuas são as riquezas, e tua é a glória: tu és o dominador de tudo, na tua mão está a fortaleza e o poder: na tua mão a grandeza, e o mando de todos as coisas”.

Mas ninguém poderá impedir que o conselheiro Ruy Barbosa se lembre da sua própria humanidade bem pertinho do altar de ouro falso onde o querem subir. E talvez ainda exclame como Jó: “Uma só coisa é que digo: Deus aflige assim o inocente como o ímpio. Se ele fere, mate por uma vez, e não se ria das penas dos imortais”.

O Jornal, 11 de Dezembro de 1921.


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