Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

O dever do presidente

Jackson de Figueiredo

Ninguém mais que o autor destas linhas desejará concorrer, na medida das suas forças, para o prestígio do sr. Epitácio Pessoa, como chefe de Estado.

Não jura que o sr. Epitácio seja um santo, não tem ajuizado bem de todos os seus atos, sabe que tem sido, como político, mais amigo das suas próprias vaidades que do bom senso da nação.

Mas reconhece que esse bom senso se tem tornado difícil de discernir na confusão crepuscular da nossa vida política, confusão que em dado momento chegou a ser tão grande a ponto de equivaler a uma noite sem estrelas. O que se via era como se não se visse, tão difícil saber do limite de cada coisa, umas entradas pelas outras, misérias, abnegações, sórdidos interesses e atos patrióticos, tudo fundido num mesmo estúpido tumulto de paixões, tumulto selvagem, africano, incompreensível no seio de um povo civilizado, mas que, de fato, foi o que se viu entre nós, desde que a chamada dissidência apareceu em nosso cenário político para confirmar, ainda desta vez, os conceitos do velho José Agostinho de Macedo sobre os chamados regeneradores de povos.

Mais ainda: reconhece que o sr. Epitácio salvou o princípio de autoridade, neste país, e o salvou do mais irremediável naufrágio, salvou-o pela sua coragem, pela sua firmeza, em face da demagogia com imunidades parlamentares, em face da demagogia das ruas, e da demagogia dos quartéis, a pior, a mais perigosa, a mais aviltante para a civilização de qualquer país, por mais aviltado que já se encontre.

Ora, basta esta “verificação” na história do seu período governamental, para que, sem lisonja, se lhe possa dar, sejam quais forem os seus erros – que nunca poderão pesar tanto quanto um tal benefício (título alguma coisa mais alto que de simples benemérito da pátria, a que salvou, repito, da mais completa ruína, que tal seria a subversão aceita como sistema político, a revolução como regra e expressão da nossa soberania, a falta de vergonha como instrumento de regeneração republicana, o custe o que custar como princípio de moral, o desrespeito e a calúnia como base de educação civil) – a escolher, entre os lindos frutos que a mentalidade da dissidência produziu nestes últimos meses, que, não fosse o desprezo do sr. Epitácio pelas ameaças do maribondismo de imprensa e farda, valeriam bem cem anos de degradação nacional.

Já agora é evidente que a sua resistência a tais misérias está vitoriosa de um a outro extremo no terreno da luta, pois não creio que ainda haja quem conscientemente sacrifique uma única hora de sossego no altar dos delírios verdes, das vigílias cívicas, em que já não acolita o extraordinário Oldemar, homem que, se não foi, propriamente, o apóstolo das gentes da dissidência, foi, pelo menos, “o tabu” animado, de cujas ocultas forças mais se valeu o sr. Nilo Peçanha.

Mas por isto mesmo que o sr. Epitácio pode gabar-se de ter dominado um dos mais grosseiros e repugnantes ímpetos de anarquia com que já nos ameaçou o bastardo militarismo – que jamais foi temido de nação alguma, estrangeira, mas tem sido o terror constante dos cidadãos desarmados do próprio país que o sustenta – por isto mesmo o sr. Epitácio, é o caso de dizer-se que não tinha mais o direito de ferir-se a si próprio, de sacrificar às levianas ambições de quem quer que fosse, a sua honesta glória de mantedor da ordem, de salvador da moral pública, de vingador da cidadania brasileira, em aventuras como essa de Pernambuco, a cujo desenvolver a nação toda tem os olhos presos.

Porque não há tergiversar em casos desta natureza: celui qui dispute avec ses devoirs est tout prêt á ler violer.

Ninguém nega ao sr. Epitácio o direito de acumular em Pernambuco a força federal que julgue necessária à defesa das leis “nacionais” naquele estado; ninguém lhe pode negar o mesmo direito de, como chefe supremo da nação, intervir na política de qualquer das unidades da Federação com o seu conselho, com o seu prestígio, dado que a maior responsabilidade no conjunto da vida pública brasileira recai sobre a sua cabeça.

O que não se compreende, porém, é que, tendo o sr. Epitácio interesses de família, pessoais, portanto, na política de Pernambuco, consinta que a força federal, de que dispõe, se faça, repentinamente, a guarda do direito político naquele estado, antes mesmo de se declarar este na impossibilidade de exercer-se.

Não há mais telégrafo do Recife para o Rio? Dadas as ameaças de desrespeito à força federal por elementos do sr. Borba, que consultas fez o sr. coronel Pessoa ao sr. presidente da República? E este, que respostas lhe deu?

Não é crível que algumas centenas de soldados do Exército, bem disciplinados, bem armados, bem comandados, temessem o próprio aniquilamento antes de ter o seu comandante o tempo necessário para se comunicar com o chefe da nação. E daí o que resulta é que ou o sr. Epitácio julgou acertada a intervenção da força federal para a manutenção de princípios republicanos profundamente abalados – e o que era digno e coerente com os demais atos de seu governo era declará-lo francamente, ou o sr. coronel Pessoa abusou da força, que lhe está confiada, e não se compreende que o sr. Epitácio acoberte com a sua autoridade abusos desta ordem, máxime neste momento.

Dizer o que estou dizendo não é fazer, nem de longe, defesa alguma do sr. Borba e dos que o acompanham.

Se do lado da oposição em Pernambuco, a figura do sr. Dantas Barreto ressalta do seu ridículo acadêmico em novas façanhas de prepotência caudilhesca, não se tem feito, até hoje, notável o sr. Borba senão pelo renome de violento e rancoroso. Mas já é preciso não se considerar defeito qualidades tais, num país em que os tolerantes, os chicodoces da hipocrisia já cometeram todos os crimes e baixezas.

O que o sr. Epitácio deveria ver, se não souberam ver os seus parentes, era que o simples fato de os ter entre os principais elementos da oposição de um dado estado, o punha em situação delicadíssima para um homem de honra, como s. Ex., e abria à imprensa sua inimiga, nesta capital, uma porta de aparente justiça para o caluniar com ares de santidade.

Todo o mundo sabe que essa imprensa é uma das forças das minorias oposicionistas, deste momento, aí por quase todos os estados. Unicamente do lado da oposição pernambucana ela só tem olhos para ver bandidos, cangaceiros, ambiciosos etc. Entretanto, a união, a mancebia entre a honestidade republicana, que se diz representar o sr. Borba, e um agitador mais ou menos bolchevista, como o sr. Pimenta, não lhe causa espanto, a ela, a vestal democrática desta internacionalíssima suburra.

O sr. Epitácio ainda pode, no entanto, esmagar, neste caso, os seus caluniadores, esses mesmos, mais hábeis, que sabem aproveitar as mais tênues sombras deste crepúsculo nacional, e com elas armar fantasmas à fácil imaginação popular.

É, em verdade, triste ter que descer um homem de bem, todos os dias, a dar explicações de sua conduta a seres tão ignóbeis como são comumente os gritões das chamadas modernas democráticas.

Mas é este o martírio e a glória, por fim, dos que, vencendo todas as repugnâncias, ainda buscam fazer algum bem às sociedades a que pertencem.

Nós ainda vivemos amargos minutos da mesma hora de universal desequilíbrio, em cujo início escrevia José de Maistre1 ao Marquês de Sales: “Talvez eu tenha mentido, porque nesta época extraordinária o senso comum não tem mais senso comum”.

Mas não esmoreça o sr. Epitácio por ser tão difícil diferenciar a verdade da mentira nesses agitados domínios políticos. Procure-a com afinco e dê-a clara e positiva ao país. Mesmo má ainda será boa, porque é de verdades que precisamos, verdades que, no domínio moral, quaisquer que sejam, são sempre mais dignas de acatamento que a sofística e a hipocrisia.

Parece que o sr. Epitácio tem dado já bastantes provas de que sabe se pôr acima de uma e de outra, a custo mesmo dos mais rudes combates com os endeusadores de ambas.

O Jornal, 4 de Junho de 1922.

  1. Longe de termos por Jackson de Figueiredo uma espécie de afeto que nos tornasse acríticos em relação ao nosso patrono, afirmamos que ele, muito provavelmente devido a circunstâncias pessoais — como sua conversão tardia e morte prematura — e ao momento histórico em que vivia, deixou-se influenciar por escritores daninhos, entre os quais estão José de Maistre, citado no presente artigo, Charles Maurras e Blaise Pascal. Publicamos os artigos a título de peça histórica, sem endossar de modo algum os louvores de Jackson a tais escritores.

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