Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Da antologia contemporânea

Jackson de Figueiredo

O grande António Sardinha não podia deixar de figurar nesta Antologia, em que reúno os testemunhos do que ainda resta de honestidade humana, relativamente ao dilúvio de mentiras em que a civilização cristã se vai esboroando.

Ele era, no entanto, do número dos que têm fé e o direito de tê-la.

Estudando as possibilidades da política contrarrevolucionária se, como Ferrero, pensava que “estamos no fim de um mundo”, como Valois, nada esperava também do chamado espírito conservador — “destes conservadores de todos os países que jamais conservaram senão o mal”.

Na sua página famosa sobre “A Ordem-Nova”, ele citava esta tremenda lição do economista francês:

“O perigo não está na alma dos povos. Está no espírito dos governos, que estão sob o ‘controle’ da plutocracia. São os plutocratas e os seus servidores que perturbam a Europa tanto ou mais que as ideias revolucionárias. ”

Nós sabemos como, no Brasil, a plutocracia meteca [1], que os negócios durante a grande guerra tinham reforçado, ferida nos seus interesses pelo Sr. Epitácio Pessoa, e não menos pelo Sr. Arthur Bernardes, quando presidente de Minas, e toda esperançosa das fortes ligações que tinha com o Sr. Nilo Peçanha, nós sabemos como essa plutocracia de negroides sem escrúpulos [2] e estrangeiros atrevidos animou o espírito de rebeldia, que, desde o império, lavrava nas nossas forças armadas, sob múltiplos aspectos de um idealismo de quarta ordem. Foi ela quem sustentou, em jornais de pura indústria de popularidade, o entusiasmo odioso de odientos caluniadores. Foi ela quem tentou armar braços assassinos. Foi ela que, nas nossas fronteiras, acumulou armamentos e, usando o anonimato dos bancos, se multiplicou em auxílios a toda obra de perversão social, a todo heroísmo de salteadores da nossa honra militar.

Não estamos, pois, livres de um assalto ainda mais cruel e indigno à unidade nacional, à nossa autonomia política.

Esses homens de dinheiro, como diz Valois, vêem o mundo através de notas de banco e perdem a noção da realidade. Tudo para eles aparece com a feição de negócio, e pouco se lhes dá que o lucro lhes venha de uma desgraça para o país.

A prova aí está na falta de opinião de todos eles, servidores que são de todos os vitoriosos, e infames, capazes de todas as infâmias contra os vencidos, que, não raro, foram seus amigos de ontem.

Ora, se o Brasil se quer salvar, se o Brasil quer mesmo transformar em proveitosa experiência o esforço do atual presidente contra a putrescência revolucionária, que anda nos atormenta, o que é necessário é fazer uma verdadeira revolução nos nossos métodos políticos, em que a força predominante venha a ser a do bom senso, em detrimento de tudo quanto constitui alimento e vida da ideologia judaica, que tudo, entre nós, tem conseguido avassalar, diminuir, conspurcar, aviltar e confundir.

“Nada está perdido — diz ainda Georges Valois — quando ainda restam à nação algumas lúcidas inteligências e ardorosas vontades. ”

O liberalismo tem sido, em toda a parte, uma fonte de inquietações e misérias. A democracia anticristã na sua essência, substituindo os valores morais pelos materiais, na verificação de incertíssimos progressos, em nada, absolutamente nada tem sido favorável às classes trabalhadoras.

Em parte alguma do mundo tem sido mais que o caldo podre, a cultura em que se desenvolve, de modo verdadeiramente assustador, a força do dinheiro, do dinheiro que não tem pátria e raro arvora um só escrúpulo no seu objetivismo político.

É isto o que se vê em toda a parte. É isto o que ameaça o Brasil, e aqui com muito mais temibilidade, dada a fraqueza das nossas bases tradicionais, corroídas estragadas por cinquenta anos de desmoralização do Estado.

A página de António Sardinha deve, portanto, ser também lida e meditada por todos os políticos brasileiros. Àqueles a que ainda reste um vislumbre de bom senso e um pouco de patriotismo, tenho a certeza de que ela fará grande bem.

“Exatamente — diz António Sardinha — exatamente, na defesa da Europa contra os dois bolchevismos — o bolchevismo do argentário e o bolchevismo do agitador, é que o nosso plano de campanha necessita de se desenvolver e detalhar quanto antes! Soldados duma nova cruzada, é na luta pela Ordem-Nova que a nossa inteligência se fortalece e o nosso braço se inspira! O patrimônio que recebemos do passado oferece-nos consigo os mais imprevistos gérmens de triunfo. O que à vossa volta está desabando é toda a ignóbil constituição ideologista do espírito da Enciclopédia.

“Incapacitado de responder às interrogações que o assaltam de hora para hora, cada vez mais opressivamente, na sua rota desesperada de náufrago, o Estado parlamentarista e plutocrático não tardará a ruir. Deixemo-lo baquear para que a sociedade, restituída às suas próprias forças, se refaça, finalmente, do adormecimento vegetativo em que ele a lançou com o peso das suas insaciáveis oligarquias parasitárias! No entanto, evitemos que, num estremecer de pupilas hediondas, a Horda, que espreita e avança na sombra, se precipite para o saque desejado, como um bando primitivo de gorilas! Na missão que a Providência lhe distribui, cabe-lhe arrastar à última capitulação a firma de banqueiros que exploram por sua conta os benefícios do chamado ‘Progresso’ e têm os interesses da humanidade como um alto e lucrativo negócio.

“Enquanto eles se abismam na escravidão infame da Matéria, confessemos nós o poder invencível do Espírito, ajoelhados diante dos átrios misteriosos da Cidade Futura! É bem singelo o nosso programa, que todo se condensa em regressar primeiro, para progredir depois. ”

Ah! Está, pois, o conselho límpido e claro como um raio do sol.

O Brasil ainda tem filhos dignos de empreenderem a sua salvação, dignos de impedir, custe o que custar, a sua desintegração, o seu aniquilamento, que é, fatalmente, o que se dará se, aos fastos da rebeldia inconsciente, sem norte e sem ideal, se aos fatos que, perpetuamente, se vão reproduzindo e provando o nosso “insolidarismo” democrático, só contrapusemos, como até hoje, vãs palavras e vãs promessas, esse triste, esse mísero arsenal de frases feitas e chavões de liberalismo tropical. Vãos serão também até mesmo os atos de energia individual, e as atitudes de coragem e de sacrifício dos homens de governo.

A revolução far-se-á de qualquer modo: ou para o bem ou para o mal.

Mas só o escol do país pode fazê-la para o bem, só ele pode evitar que as forças inconscientes e malfazejas se despenhem sobre a nação e a despedacem.

É preciso, pois, uma revolução do alto para baixo. Já dizia José de Maistre que não é possível contrapor-se a uma revolução, sem adotar seus métodos, pelo menos enquanto estes não firam a essência da Contra-Revolução.

Isto quer dizer que há horas em que a força é o primeiro elemento em uma política verdadeiramente construtora, a vingadora, por excelência, do mais sagrado de todos os direitos, assim dos povos como dos indivíduos, isto é, o direito de viver com dignidade.

Quem quiser que me entenda.

Gazeta de Notícias, 17 de março de 1926


[1] “Meteco”, aportuguesamento de Μέτοικος, era o termo para designar os estrangeiros na antiga Atenas. Jackson de Figueiredo o utilizava para se referir a intervenções exteriores na política e economia brasileiras.

[2]  Alusão ao próprio Nilo Peçanha.

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