Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Cartas a “Ele”

Jackson de Figueiredo

Não tinha intenção de escrever coisa alguma sobre as Cartas a “Ele” da poetisa Elóra Possólo.  Mas para satisfazer um amigo, que me merece o maior respeito, e porque vi o nome de outro, o de Jonathas Serrano, por causa deste mesmo livrinho, como alvo de críticas, tanto mais antipáticas quanto mais abafadas no mesquinho ambiente das rodinhas católicas.

Li-o e, devo dizê-lo, do ponto de vista propriamente literário, estou longe de concordar com seu prefaciador.  Jonathas Serrano dá-lhe, generosamente, foros de singularidade em nossas letras “pela comovida suavidade, finura psicológica e genuíno senso artístico”.

Pelo contrário, julgo-o um livrinho regularmente medíocre, pouco sentido, artificial, o que quer dizer, de pouco valor poético. Estranhável isso porque Elóra Possólo é uma poetisa no rigor da palavra. O seu “Azues” é obra de principiante, mas já alguma coisa mais que uma simples promessa. Mas seja qual for, foi este o juízo que formei após a leitura das Cartas a “Ele”. O livrinho, do ponto de vista literário, merecerá o elogio a que faz jus tudo (mesmo o pior) quanto sai das mãos de uma criatura talentosa.

O que a impõe, no entanto, é o fato de estar a merecer severas impugnações em nome da moral católica…

Ele se fez assim, de uma hora para outra, e sem que o pretendesse talvez, o símbolo da nossa liberdade estética, na hora mesma em que, com tanta força e tanta beleza, se delineia, pela primeira vez, na vida das letras brasileiras, um movimento literário e genuinamente católico, consciente do espírito que o anima, e ao qual não será mais possível ao crítico de boa fé negar este caráter.

É preciso, pois, defender a autoridade de Jonathas Serrano, que prefaciando-o, o integrou a este movimento. É preciso defender na ficcionista das Cartas a “Ele”, o direito, não só da liberdade meramente poetisa, mas da expressividade mística como forma literária.

É porque uma beata, lendo um livro de capa preta, terá o direito de chamar Jesus seu doce amado, e a uma poetisa de vinte anos se negará este direito?

Esta é a questão que verdadeiramente nos interessa resolver, mas sobre a qual, ouso dizê-lo, só persiste dúvida, entre nós, justamente porque, do nosso meio rigorosamente católico, são poucos os que acompanham com amor a renascença da espiritualidade cristã nos meios propriamente literários do mundo ocidental.

Aos que, deste modo, falam do que não conhecem, não haverá como convencê-los  por autoridade nossa, nem também valerá a pena expor-lhe o que de liberdade e ternura puramente humanas está nas obras de um Claudel ou de um Peguy, sem que ao senso doutrinário da igreja de França, por exemplo, jamais se impusesse o dever de condená-las por imorais ou desrespeitosas à majestade de Jesus Cristo.

Restrinjamos, pois, a exemplificação com que queremos salvaguardar o direito da nossa patrícia, valendo-nos a argumentação de uma única autoridade, a do Franciscano Martial Lekeux, autoridade, note-se bem, não só no domínio das letras sagradas, mas também no da atividade puramente literária e artística.

Ora, em primeiro lugar, devemos consignar que, prefaciando o “Electe” de Marie Magdeleine Saeyeys, o Pe. Martial Lekeux prefacia um romance em que Jesus Cristo aparece num papel bem mais de lastimar do que o que lhe empresta a temporada, a moderada imaginação da nossa jovem poetisa.

No “Electe”, Jesus Cristo é simplesmente um rival, o rival do atormentado noivo de Electe, rival, por fim, vitorioso, é verdade, mas que, mais de uma vez empalidecera e obumbra-se no horizonte do amor.

E é este todo o enredo, toda a vida interior do romance que mereceu, há pouco tempo, o prêmio da Renascença do Ocidente e que já alcançou uma dezena de edições.

Martial Lekeux, porém, não deixou que sem defesa prévia afrontasse as hipocrisias do mundo, joia tão peregrina da ficção francesa.

E a primeira palavra que chama em seu favor é a de Leopold Levaux: “Notre monde moderne, si douloureux et qui contraint si cruellment les ames a s’enfoncer toujours plus avant dans le surnaturel, applle des romanclers mystiques. Qui nons montrera purement dês ascensions d’ames contemporaines dans le Mystére de l’Eglise éternelle?

Elóra Possólo não fez mais, pois, nas Cartas a “Ele”, do que atender a este apelo da hora dramática que vamos vivendo.

Mas há mais. Há a defesa do processo mesmo adotado por ela, o da fala direta à divindade de Jesus Cristo, pela voz da paixão humana.

Em primeiro lugar, estas noções de Robert Vallery-Radot, de suma importância para quem queira julgar da liberdade que cabe, de direito, ao ficcionista católico:

Que veulent les censeurs Du Roman catholique? Est-ce lui interdire de peindre les passions telles qu’elles sont, c’est-á-dire toujours mêlêes de troubles ardeurs? Autant dire qu’il ne peut exister de roman catholique”. “L’essence du roman catholique, e’est le conflit, non pas imaginaire mais reel, entre le Christ qui cherche et appelle notre ame et notre amour-propre qui se defend contre Lui. Ce sont les deux homes de saint Paul qui se combattent em nous.

Introduire dans La psychologie Du Roman cette action Du Christ en nous rendre sensible enfin toutes les realites surnatunelles, tout le tragique  mystére du salut, viola la tache  du roman spécifiquement catholique”.

Estas palavras, que são de fevereiro de 1926. (Les Cahiers de la jeunesse – cit. Por M. Lekeux). Não parecem destinadas à defesa da autora das Cartas a “Ele”?

Neste livrinho, que um crítico avisado chamou de legenda da alma feminina, que fez ela senão tornar sensíveis as humildes realidades quotidianas da ação de Jesus Cristo sobre as almas?

Romancear o encontro com Jesus Cristo pode ser, em verdade, levar a almas menos capazes de voos filosóficos ou teológicos, à convicção de que o amante único é, em última análise, aquele que possui toda a nossa humanidade e é, ao mesmo tempo, o Deus vivo e eterno, o absoluto amor de todas as nossas aspirações.

Ora, o amor espiritual – paixão da alma –, que vaga e timidamente, aliás, se derrama nas Cartas a “Ele”, não pode, como diz o Pe. Lekeux, não pode existir “sem efusões exteriores, tal qual outra qualquer paixão humana. Ele não existe sem confiança, sem carícias, sem beijos”.

E, relativamente ao “Electe” de que verifica tão alta e sublime espiritualidade, chega o Pe. Lekeux até a não aconselhar a sua leitura a adolescentes, dado que o seu “realismo transcendente, o seu realismo idealista”, não deixa afinal, de ser realismo.

E nâo se trata aqui do eterno argumento os Cânticos. Não. Nem na estrutura íntima destes, nem das obras de uma Santa Tereza ou de um S. João da Cruz, a intenção é a mesma que se revela no ficcionismo nosso contemporâneo.

Aqui, não. O que procura exprimir o ficcionista moderno é a maravilhosa transfusão do amor simplesmente humano, no amor divino, ou melhor, a conquista pelo relativo amor das criaturas desse plano natural do amor, que é o do absoluto e do eterno. De onde, ao fim, ver-se a criatura substituída por aquele que, único, pode ser fim de todo verdadeiro amor.

L’amour humain – diz ainda o Pe. Lekeux – est um degré faelle pour monter à l’amour de Dieu: comme le chante La préface de la Nativité, c’et “par les chose visibles que nous sommes entrainés à l’amour dês invisibles”.

Se a autora das Cartas a “Ele” nem rompe o segredo de um simples diálogo; se, entre Jesus e ela, não há mais que o geral, o indefinido das aspirações da juventude, como condená-la, como estranhar a sua atitude?

Jonathas Serrano, acolhendo as confissões da jovem poetisa, fez, graças a Deus, uma obra de animação.

Quem escolher o mesmo caminho, não vai errado.

Gazeta de Notícias, 29 de fevereiro de 1928.

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