Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Augusto Shaw (ressurreição de um ensaio)

[Nota do IJF: aqui, Jackson publica um texto que ele havia escrito ainda em 1914, portanto antes de sua conversão ao catolicismo, mas já em sua fase “espiritualista”, sob influência de Farias Brito.]

Jackson de Figueiredo

Em 1914, escrevi um pequenino ensaio sobre a personalidade e a obra, quase toda inédita, de Augusto Shaw. Não o publiquei até hoje, não sei mesmo por que. E o Shaw, que viera da Europa, fugido da guerra, mas só uma coisa pensava: voltar para a Europa, daqui se foi sem esperar que eu lhe preparasse um ambientezinho de glória nacional… Agora, tenho em mão dois volumes da sua lavra, ambos publicados em Paris, ambos escritos em francês.

Procurei nos meus papéis velhos aquela joia de crítica literária… Encontrei-a aos pedaços fiquei querendo-lhe mais bem por isto. Não é possível reconstituí-la, mas vou tirá-la do cofre assim mesmo, aos pedaços. 

Ela dirá um pouco do que o seu autor, há treze anos, sentia e pensava em relação ao Shaw que treze anos atrás, enchia a Avenida com o seu tédio, a sua melancolia, o seu inacreditável profetismo proustiano. 

Creio que eu principiara aquela famosa página por uma espécie de queixa. Queixava-me de que a nossa admirável República federativa estivesse a cavar abismos ainda mais sérios do que os do S. Francisco, por exemplo, entre Sergipe e Alagoas, a criar tipos particulares, de um particularismo mesquinho das nossas ex- províncias. 

Se tinha razão, não sei, nem vem ao caso. Mas, creio que foi esta a entrada magistral do meu ensaio. 

O que consegui colar, do que a traça deixou, é o que se segue: 

“O sergipano, o alagoano, o baiano, são reconhecíveis quase a quem já houver habitado entre eles. Cada um deles tem mais ou menos o seu tipo, já em relevo, no meio de algumas fisionomias incolores, e só assim posso explicar o profundo abatimento em que fiquei quando nos meus primeiros dias no Rio de Janeiro; parecia-me ter perdido a memória fisionômica, de tal forma era-me impossível em meio desta grande agitação urbana, encontrar a linha humana de uma simpatia maternal, e me julgava estrangeiro… Ao contrário, quando na hora primeira da minha descida à terra, a sensação fora outra, tudo surgia igual ao que eu já vira, nada se destacava para espanto dos meus olhos, e isto só me diz a cegueira do atordoamento que me não deixava ver. 

E, em verdade, fora como se a treva se fizesse subitamente após uma luz vivíssima… Só pouco a pouco, a escuridão se foi diluindo, os objetos reavendo as formas, as linhas definindo-se, nesta meia luz que é a em que vivo. 

Mas, esta lenta iluminação deu-me uma outra consciência que eu não tinha… No Norte, a amizade que me ligava a homens como Garcia Rosa e Xavier Marques — figuras morais de primeira grandeza — não me tirava o sentimento de fraternidade para como todos que ali arrastavam a mesma vida de trabalho e mediocridade. A arte eminentemente isoladora não me subtraia à família e às amizades de infância, lá estava a escola, lá estavam os meus primeiros horizontes. 

Aqui, não; tudo me aparecia vestido da mais fria indiferença, era o movimento, o turbilhão, o esmagamento brutal da minha personalidade, e, então, procurei ansioso, procurava amargurado o irmão de arte, fosse ele quem fosse, viesse de onde viesse, a alma sofredora, de olhos com verdadeira luz que havia de surgir, para consolar-me, de entre os simples proprietários da forma humana. Tal era o estado do meu espírito. 

Ora, a primeira fisionomia que se destacou fortemente aos meus olhos, num relevo esquisito e estranho, foi a de Augusto Shaw, para mim estrangeiro (William Shaw, durante muitos dias), até que lhe ouvi, pela vez primeira, a origem e o porque do William que o mascarava literariamente. 

Hoje, quero-lhe tanto quanto a um irmão, um irmão de infortúnio — adoro-o pela feição pessimista da sua inteligência, adoro as suas eternas contradições, a sua incapacidade social que o faz um homem viajado para quem não existe um meio capaz de contentar… Paris mesmo, que é o encanto único do mundo, Paris mesmo, só o prende, porque seja um resumo da terra, onde o artista poderá, com menor esforço, ver tudo, estudar tudo, e, sobretudo, desiludir-se cedo. 

Augusto Shaw — que tal é o seu verdadeiro nome — nasceu na Bahia, a terra mais feliz do Brasil, a terra brasileira por excelência, e a sua infância viu o culto que é ali tão vivo ainda dos nossos costumes mais sadios, do que, entre nós, há de alegria mais natural e equilibrada. Ele é, contudo, a negação mais viva de tudo aquilo, tão viva, tão extraordinariamente viva esta negação, que faz com que eu o veja como ao estrangeiro que já encontrei nas nossas ruas. 

De ascendência anglo-brasileira, herdou Augusto Shaw, do temperamento britânico, a reverie em que vive continuamente mergulhado, e afeito à educação intelectual que nos vem toda da Europa, tendo todavia sofrido a moldagem um pouco niilista da nossa vida, ei-lo aí, tipo complexo, com as mais extraordinárias qualidades de pensador, e a nossa preguiça habitual, o bocejamento contínuo, a desilusão precoce, estrangeiro singular, cuja pátria é só a das suas ideias, mundo extravagante, mundo de um brilho excepcional, algumas vezes, profundamente melancólico, quase sempre. 

Se eu gostasse das classificações, talvez o enfileirasse entre os românticos ingleses, os mais românticos do mundo, na frase de Laurens, tecedores de cismas sonâmbulos, homens de sonho, mas com uma visão aguda da realidade, através deste sonho… 

Mas, ainda aí, neste bar fumarento, e se se deixasse ficar na mesma postura, recolhido e alheado, e a brancura dos seus cabelos, tão cedo encanecidos fingisse bem o sonho loiro do Norte, em pouco se lhe tornara incômoda a companhia, e a ânsia de liberdade sacudiria de novo os seus nervos. 

Augusto Shaw não tem classificação.” 

Há, nesta alma, tudo o que há de superior no homem moderno, a complexidade de sentimentos desarmônicos que fazem, paradoxalmente, a harmonia física desses cuja maior tortura são aqueles pensamentos de que fala Novalis, que não podem ser pensados, e isto, porque quase não são pensamentos, ainda são vida, mesmo, ainda não se destacaram do fundo divino e nebuloso do ser. 

O mundo das indústrias, as grandezas comerciais, o amesquinhamento dos homens e o crescimento desmesurado das personalidades em Comp.ª, não poderão, jamais, absorver estes depositários do sonho, redutos inconquistáveis da Divindade sobre a terra. 

Eles continuarão vendo as cores e os sons, e o espírito das cores, e o espírito dos sons… Farão eternamente a Poesia da Vida, dar-nos-ão a visão da Tragédia, e sob a atividade destas almas, haverá sempre o culto do invisível, do que de grandioso e sagrado existe no claro escuro da existência, tão comum, tão vulgar a olhos vulgares… 

A força dominadora das multidões, que trabalham na escravização das forças da Natureza, o turbilhão dos que apedrejam o Ideal e levantam o altar de ferro para o culto vitorioso do fato — como verdade única — tudo isto só consegue, tornando-os mais curiosos que conquistem devassem a simbólica vaidade das ciências, e após terem visto em tudo as eternas condicionais, a relatividade afetiva, voltem mais sábios para o seio da Arte, a única consoladora, a única desvendadora, cujas mãos divinas propiciam a delícia dos eleitos, a alegria de saber sofrer… 

Tal se deu com Augusto Shaw. 

Quem o conhece de perto compreende melhor a velhice que se lhe pinta precocemente no rosto, a expressão de cansaço, medindo o esforço enorme para a posse desta cultura geral, que o faria admirar mesmo nos meios mais cultivados da Europa, se nele houvesse também a força de objetivação, de paciência que é o segredo dos gênios revelados. Todavia o espetáculo é curioso e a lição admirável… Os seus profundos conhecimentos matemáticos e das ciências mais diversas, toda a massa compacta dos sistemas filosóficos positivistas e positivos, tudo isto se fez música, fez-se sabedoria, fez-se arte, a sutileza, a apreensão milagrosa do que se não demonstra, do que foge às definições e se não deixa classificar. Mal conseguiu, quando entre eles, vestir-se à moda do tempo, obedecendo às exigências do meio… Falando da alma disse uma vez:  

“Não me repugna admitir a alma, uma vez que as considerações em tal ponto desçam ao domínio das relações formuladas”.  

Mas lede todo este trabalho de raro valor no Brasil e apreciável seja onde for. “Inconsciente e Pensamento (sobre uma forma da energia) e verei todo o material com que lidam os Bohn, Huxley, Grasset, Mosso, Wundt, Ribot, Angeli e mil outros experimentalistas e especialistas, desdobrados numa página emocionante de pensamento, em que a vida rufla as asas misteriosas, em que a ironia é cruel algumas vezes, e a gente ao terminá-la presente relações atrás das relações formuladas, e atrás destas ainda a vida em liberdade, informulada, não matemática, e fica desconfiado das ciências, porque a sabedoria nos diz que todas elas são pequeninos círculos que mal contém uma partícula do todo… 

Augusto Shaw ainda aí é o artista, uma espécie de louco raciocinante para os homens do número e da monera, que fala a língua deles mas cujo discurso desorienta pela construção não geométrica, e cuja lógica combate todas as lógicas, demonstra quase sempre pelo absurdo, que só o sentimento entende… 

Assim é o artista que fala em defesa da vida, sábio do sofrimento, que gera as maravilhas… É ele quem diz:  

“E o mundo fique assim mesmo…”  

Fique assim mesmo o mundo, o mundo cheio de misérias, de torpezas, pântano infecto, mas onde surgiu, do seio mesmo das águas podres e tenebrosas, a flor da eterna juventude, o Ideal que não morre nunca, e se alimentou dessas misérias, mas cresceu, cresceu para o céu, adivinhou o Infinito e escuta a voz prodigiosa dos Tempos, de além dos Tempos da Eternidade… 

É do Artista a ironia de que o livro está cheio, é ele que nos fala da vitória das atitudes, e dá aos que assumem a guarda favorável perante o mundo, a função de desocultarem o imenso saber do êxito. É a sua ironia o que defende a liberdade de pensar que a inquisição moderna dos livres pensadores quer enjaular no jardim zoológico das alienações mentais, demonstradas logicamente, sob um padrão de normalidade ainda ignorada. 

E aqui vale a pena a transcrição de algumas linhas: “As ideias, diz ele, que dominam uma estirada de anos, têm a força esmagadora das avalanches descomunais (é banal o dizer disto). 

Empina-se um estreante a materialista, monista ou qualquer coisa outra acabada com ista, que nega a Deus esbordoa a religião, desanca a alma e a metafísica, ri dos apóstolos complacentes da tolerância sábia, pedanteia julgando Metchnikoff otimista rosco e falador, superficial, faz a psicologia doa cães domésticos e dos cavalos de circo; tanto melhor. É tido sem delongas como erudito; manuseador sábio e desolado dos luminares da época; Haeckel, Buchner, Le Dautec e tantos outros; espírito positivo e verdadeiro; biologista e evolucionista; por fim doutor nas coisas profundamente profundas. 

Do outro lado o homem é dualista; acredita poder existir alma, ou na melhor das hipóteses (como aconteceu a Crooks) procura investigar o que formam de apreciável as revelações espiritualistas; tanto pior. Trituram o pobre de encontro à positividade do estudo do protoplasma; da anatomopatologia, da bacteriologia, da neuropatologia, etc., e o mais que nos aumenta o pasmo, complica e raramente cura. 

E toda esta mistura no grau da biologia, seria suportável, se não terminassem classificando o desgraçado num quadro típico de alienação mental. O motivo desta desapiedade sova? Afastar-se o paciente do espírito da época”. 

Afinal de contas, Augusto Shaw se mostra neste trabalho tal como é seu pensamento, capaz de se contradizer sem desmentir-se. 

É ele quem defende a ciência contra a má compreensão dos que lhe pedem mais do que ela promete; é ele quem nega positivamente (pera a compreensão dos dissecadores) a existência de Deus porque pensar é sentir, e o córtex é como o céu onde se faz o pensamento, mas também é ele que vê em tudo, em todas as manifestações da nossa atividade, desde a daquele investigador alemão, a vida inteira a estudar um rabo de mosquito, até à desse poeta entre as rendas de um sonho feminino, a volúpia, em tudo a volúpia, feições diversas de uma volúpia eterna, espécie de sadismo universal, pois a curiosidade nos leva sempre adiante nos braços da desgraça, que nos assalta, que inventa processos novos para o próprio martírio, e se analisa, e se disseca voluptuosamente… 

Mas o Shaw que possui toda a minha admiração ainda está adiante deste que se curva ao peso do saber acumulado por mil gerações que demonstraram a giz, a escalpelo e microscópio… 

Agora o vejo na ampla liberdade da sua estesia, meu irmão nesta travessia tormentosa, contornando a Boa Esperança do Espírito, do espírito que não esmorece, e há de conquistar para o Velho Reino do Bem, as índias riquíssimas do Sonho, para espalhar o ouro a mãos cheias, o ouro cristão dos mais belos ideais… 

Infelizmente o meu terror do desconhecido não me deixa falar do que ele tem de mais querido, as suas peças teatrais, porque me falha o conhecimento técnico do assunto. É verdade que, entre nós, outros mais desconhecedores talvez se fizeram até escritores de teatro. Mas prefiro não os acompanhar neste terreno. 

Por isso só poderei falar do seu pensamento, do espírito que o anima, e para isto tanto me ajudará a sua página mais esquecida como aquela que haja tido melhor sorte, porque, em verdade, não haverá meio de evita-lo, e, em qualquer dos seus trabalhos, ele, o Shaw, aí está vivo, em todos os seus períodos, dentro do laconismo de certas frases, nas curvas longas de certos trechos, nos parêntesis repetidos, nas suas interjeições tão naturais. 

E então, sincero, despido de qualquer receio, selvagem em meio à civilização, das obrigações, dos rituais, das modas, evitando os laboratórios e as farmácias do pensamento a retalho, Augusto Shaw se mostra tal qual é, absolutamente ele, uma alma profundamente, extraordinariamente religiosa, olhando o tumulto da vida como uma elevação para a bondade, fazendo desta a suprema beleza, e da beleza a única razão de ser do mundo… 

Ele vive a dizer como mestre Eckart: O céu está em nós mesmos, e até nos seus desânimos descansa a mão ao ombro amigo da mais alta sabedoria, aquela que duvida para crer com mais segurança e ir com a vida, que é o mais certo… 

“Sempre, diz ele, que a investigação humana, atormentada pela embriaguez da dúvida, parte em galope forçado, a espancar o sonho, ansiar a verdade, atingir um ideal de harmonia e equilíbrio — eu me pergunto: Valerá a pena? A lei da existência não será a cabeçada bêbeda por todas as incertezas, o eterno desequilíbrio? 

E o drama do homem, alguma coisa maior que a dança macabra ante o espelho diabólico da imaginação, a subir e a despencar, ao compasso desconcertante do destino? 

Romper, esgalhar mundo a fora, e pela esteira dos séculos perguntar ao esforço — o que conseguiu de verdade, o que lhe restou, além de seu esforço… 

Subir da célula aos côncavos celestes e ao fim da jornada reconhecer a independência do micróbio e a servidão do homem… 

Porque e para que? 

Desfeitas todas as ilusões, talvez encontre o homem a maior ilusão — a ilusão de ser desiludido. 

Resolvam quanto quiser, uma coisa restará insolúvel — a vida. Sem solução e sem definição. 

Desfeitos os enigmas das coisas, sobrará o maior enigma — talvez a origem de todos os outros — o homem”. 

Mas dois passos adiante: 

“Por fim, no íntimo, todos nós adoramos o mesmo ídolo, sem velhice e sem par — a vida. Misérias e maldades, sofrimentos e desilusões… é tudo isto que nos seduz. 

Sem muito andar chega-se a encontrar que a base do edifício humano é convencional. Vícios e virtudes são palavras. Raciocínio, um artifício para uso externo. Consciência, uma exigência que impomos ao próximo. 

Conhecer é desejo, e o desejo não tem limites. 

A maior conquista dos nossos dias é o reconhecimento da extrema complicação que nos envolve, é a fragilidade do alicerce onde se erguem inabaláveis certezas. Talvez a máxima expressão positiva seja a afirmação do invisível… 

Nos dias que corre, a tolerância deixa de ser uma concessão dos homens, para se tornar uma imposição das coisas. 

Na imensa construção do universo o mais admirável é a arquitetura do mistério. 

E quando a vida se torna um dever quando se é obrigado a seguir em grosso com o resto dos homens — tendo-se atingido a visão nítida das contradições humanas — o que se tem a fazer é conteirar um imenso salto e remergulhar na banalidade…” 

Aí está a súmula de todas as suas amarguras, de todas as suas desilusões, é este o seu licor de Sabedoria… 

Só a Arte é para ele a embriaguez que nos escurece a vista para o exterior, e prende-nos em nós mesmos, e então estamos em face do abismo, do que quer que seja de infinito, e temos a ilusão de possuí-lo, e esquecemos as vinte e quatro horas do dia, os trinta dias do mês e somos, por um momento, a própria vida em toda a sua plenitude… 

A realidade é o homem e o homem é a fantasia, é o que li em uma novela sua, ainda inédita (L’Inconne), e ainda mais como explicação do seu pensamento: 

“A verdade objetiva não existe, o que existe é o temperamento, a fantasia, a realidade segundo as nossas tendências e educação. Cada um vê o mundo através a engrenagem dos próprios sentidos. 

A verdade absoluta é inacessível; e se pudéssemos tocá-la desapareceriam todas as causas das oscilações humanas, alcançaríamos o equilíbrio, mergulharíamos no nirvana intelectual. O que conseguimos é a verdade parcelada, ilusões fragmentares da imensa ilusão universal. E unicamente a arte, na espontaneidade das suas traduções, na inconsciência do seu processo nos dá o exemplo eterno e primoroso da realidade em pedações. 

Ante o primor artístico, dizemos nós: ACABADO, PERFEITO, ETERNO, — exprimindo assim as vibrações inexprimíveis dos nossos sentidos, alguma coisa de nós mesmos que lá está que não parece que é o imaterial da nossa matéria e tem o nome de humanidade. O artista é o revelador da vida, é o transmissor da divindade, é o sábio inconsciente.” 

Quem percorrer o mundo complexo, as paisagens desoladas, as montanhas com a sua neve de ceticismo, os rios melancólicos, os mares tempestuosos, os desertos de desesperança; quem vir as auroras e os crepúsculos; quem sondar todos os abismos do pensamento humano nesta era de amarguras, que vamos vencendo, saberá ler estas páginas… Tudo falhou, o Artista volta ao seio da Arte, e a sua descrença o leva novamente para o seio da fé. 

Fé em que? Quem o sabe? Quem definirá esse Deus porque aspira talvez, Augusto Shaw? 

Mas a fé nem por isto é menor o invisível e o mistério, eis o que procuram as almas que receberam o batismo dos Poetas, como dizia Anthero, e que entre a imperfeição e o incompleto das coisas só tem, para alívio, o sofrimento e o sonho… 

Todos estes períodos em que aparece a divindade ainda mais misteriosa do que ela já é em si, para o crente mais definido, (porque o pensador não nos dá a menos demonstração de como o sentimento lhe veio dessa força incompreendida) fazem-me lembrar a frase tão desequilibrante de Romaz Rolland: “Au fond il était trop religieux pour penser beaucoup a Dieu”. 

Há poucos dias numa noite de trevas fantásticas, de trevas molhadas por uma chuva torrencial, trevas que pareciam viver, não só na imaginação, e moverem-se, crescerem numa ânsia de devorar, fugindo-as, no recolhimento do meu quarto, não sei que ordem de ideias me levou a ler uma biografia de Stuart Mill. Fiquei depois muito tempo cismado sobre aquela vida matemática, aquela vida lógica, aquela vida como uma fórmula superior, mas tão longe da vida… 

O velho James Mill plantara em bom terreno, e a árvore cresceu, e deu sombra… 

Todavia, pensava eu, nada mais perigoso que um sábio de razão pura, e aquele poderia ter feito do próprio filho um simples idiota, formando-o em idade tenra, àquele espartanismo intelectual tristonho e doloroso… 

Pai para ser amaldiçoado e bem mais claro vê aquele que negas letas ao filho. Porque afinal Stuart Mill cresceu em saber, foi a cabeça poderosamente preparada para construir lógica e racionalmente… mas que lhe deu a vida? De que lhe valeu o coração? 

Teve Mme. Taylor — e foi ainda um sentimento lógico — como se caçasse ao seu liberalismo o socialismo dela, sofreu, mas onde a delícia do sofrimento, se lhe faltou a loucura de amar o erro? 

Após ter assim raciocinado, me veio à lembrança o sábio inconsciente de que fala Shaw, paralelo a este outro da razão pura, construtor consciente… 

Encontrar-se-ão no infinito? Quem sabe?! De mim, penso que não. A linha do que Nietzsche já chamou rien pour une femme, interrompe-se, bruscamente, no limite do mundo das relações visíveis com o do mundo do espírito. Só o sábio inconsciente, aquele cuja sabedoria é uma fé, não para nunca. 

Lembra-me uma definição de Ardigo, a aplico-a a meu modo porque deste somente se pode dizer que a consciência é o infinito mesmo, que é como a eternidade do seu ritmo. 

Mas para possuí-la é preciso sofrer, sofrer sempre. Destino essa missão da amargura, porque este é o sinal de Deus, e quem percorrer a Imitação, lá verá: “Aqui os sofrimentos são uma graça de predileção.” 

Ora, o sofrimento é a essência da existência moral de Augusto Shaw. 

Tão natural que se não destaca dos seus gestos, e a sua cisma é uma dor adormecida na profundeza de si mesma.” 

Eis o que consegui salvar do que há treze anos escrevi sobre Augusto Shaw, hoje definitivamente naturalizado nas letras francesas. 

Acabo de ler os seus dois volumes de teatro, a Salomé, de que Tristão de Athayde já nos falou tão bem e as três pequeninas peças: Le dernier baiser; La chute des roses; Oasis. 

Um mundo de saudade, eis o que pude ver através daquelas páginas, lidas com o mesmo amor, que jamais em mim esmoreceu, àquele tipo singular de homem — Augusto Shaw, um dos mais singulares (o que quer dizer: um dos mais perfeitamente homem) que tenho conhecido. 

Mas treze anos depois — além desta amizade que transcende dos fatos — só numa coisa a atitude de meu espírito ainda é a mesma em relação à obra de Augusto Shaw: não entendo de teatro. Não sei se porque se impões demasiado a mim a figura humana, já, de si, tão impositiva na vida real. O teatro será talvez como uma demasia, a quem já se cansa de ver o homem a mover-se nos mesmos cenários de miséria e de dor. 

É claro que eu hoje me sentiria visado pelo próprio Shaw como criatura de partido que sou, de sistema, de programa, de definição e de lógica, o sou justamente porque tudo me leva a crer que só assim não me deixarei ficar na vida como um simples depositário da forma humana. 

Mas com o Shaw não se discute. Deus me livre de procurar saber aqui quem de nós tem razão. O Shaw na plenitude da sua vida criadora se me apresenta de novo, nos seus tipos, nas suas intenções, a mesma criatura quase indefinível, de atitudes complexas, contraditórias, de gestos entre a mais dura incisividade e a flexuosidade mais inapreensível, um homem enfim com quem é impossível discussão, valendo mais a pena admirar a harmonia que ele sabe fazer de tudo isto, e o seu desesperado amor à vida, que se lhe revela tão cruel. 

É melhor, pois, fraternizar com ele, pelo menos, nesta sua fé, que transcende também de todos os fatos. E abraçá-lo com saudade. 

Gazeta de Notícias, 21 de dezembro de 1927

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