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A fisionomia cultural do autor d’“A Bagaceira”

Jackson de Figueiredo  

Sim, tinha toda a razão Tristão de Ataíde quando há poucos dias falava com tanto entusiasmo d’A Bagaceira, o romance com que José Américo de Almeida acaba de conquistar um dos raros pontos de relevo na vasta e brejosa planura do ficcionismo nacional.

Li-a também, por minha vez, — a essa obra singular — e me apresso, como tantos outros se apressaram, não a fazer-lhe a crítica, mas a aplaudi-la publicamente, contente de render homenagem a um artista nosso, dos nossos dias, coisa que já vai fazendo saudade a quem vive cansado da aparição de tanto calunga histérico, desses que mal escondem a impotência de criar — o que realmente seja um obra de arte — sob o tatibitatismo, sob a gagueira e a tosse dos lirismos gráficos, das confusões sibilinas, dos períodos reticenciais, das páginas em branco.

Em A Bagaceira, não, desde as primeiras páginas, o ritmo de um espírito criador, de uma alma liberta de todo compromisso com o nosso público de ledoras de bonde. Nele tudo é aspiração da verdade integral — a verdade sobre a alma semibárbara do Nordeste (cenário o mais comovente do drama brasileiro) — e daí este “livro triste que procura a alegria” (como toda obra de arte, pois a alegria é razão religiosa de viver), e onde se verifica que “ver bem não é ver tudo: é ver o que os outros não veem” (assim na arte como nas matemáticas ou na mística), e onde não se interpreta com sobriedade o que é violência dos instintos mas não se esquece nunca que “escrever é disciplinar e construir”. (A harmonia, pois, entre a vida real, que se oferece ao poeta e a força criadora deste, que é, queiram ou não queiram, uma força condicionada ao racional, ao discursivo mesmo, ao que se faz para outrem. A verdade integral, tal como a arte a pode aspirar, e à qual se integram, por sua vez, “reticências e intenções”, mas sem pretenderem ser os alicerces da obra).

Em A Bagaceira, repito, desde as primeiras páginas, a sensação é a de se estar diante de um mestre, isto é, de um homem senhor de sua arte e que, por isto mesmo, não a deixa deformar-se ao sabor da pura imaginação ou entisicar na ânsia das meras agudezas subjetivas, entre as quatro paredes da alma, só vivendo de si e para si, na cruel ascética do narcisismo semi-intelectual.

José Américo de Almeida vive a paisagem brasileira, e tão intensamente a conhece, que pode evitar o que ele chama os seus “lugares-comuns”.

Mas documenta-se facilmente a história deste vigoroso espírito, e torna-se mais compreensível que ele surja, assim, como que de repente, verdadeiro conquistador, (conquistando mas construindo sobre o chão conquistado) da incerta, indefinida região, somente há pouco pressentida ou adivinhada pela nossa ânsia de auto penetração, de introspecção coletiva nacional.

José Américo de Almeida, que certamente não é um jovem de vinte e cinco anos, é um desses raros espíritos que ainda podem ser chamados a testemunhar o que foi, para a sua terra e a sua gente, o período que vai do início do governo Epitácio ao início do governo Bernardes — período em que sucedeu à alegria, à fé, à segurança, de todo um povo beneficiado por um gesto de patriotismo inteligente, em que sucedeu a tudo isto a amarga desilusão, a humilhação em que se vai afundando todo o Norte do Brasil, desde que já não é mais possível negar que é olhado como colônia, e colônia de incertas rendas, pelos clarividentes estadistas dos Estados imperiais da nossa grande República.

Em 1923 publicou José Américo de Almeida, um dos melhores, um dos mais bem documentados livros que já publicou brasileiro sobre a terra nordestina — A Paraíba e seus problemas — volume de quase 700 páginas — vasto ensaio em que, pela primeira vez, (um pouco desordenadamente mas sempre com muita inteligência e liberdade de espírito), ressaltam de uma publicação mais ou menos oficial (penso eu), afora o mais que contém de geografia, de fisiografia, de geografia histórica, os traços mais característicos da geografia humana do Nordeste, isto é, da mais misteriosa das fisionomias coletivas, que perfazem o Brasil.

E será nesta obra do observador, do pensador, do estudioso, que encontrarão os seus críticos a explicação da personalidade, realmente, à primeira vista, desnorteante, desse nortista silencioso e obscuro, sem ligações conhecidas com o que se agita de mais vivo em nossa paisagem cultural, e que, mal se apresenta, em toda a fúlgida nudez de sua alma, exige, impõe, por assim dizer, que se lhe rendam as homenagens devidas unicamente aos que encarnam qualquer coisa de essencial à nossa vida, no que esta já tem de verdadeiramente caracterizado.

A Bagaceira é o poema do sertão nordestino, ou melhor, o poema da humana vaga sertaneja, em seu perpétuo rolar do sertão definido, heroico e idílico, às terras mestiças, sensuais, dispersivas, cruéis e sentimentais, que se abeiram da inconstância do mar. E as duas paisagens, que se limitam, os dois homens que se mesclam no amor passageiro, no amor definitivo, assim como na rusga de momento e no ódio mortal.

Mais do que isto: se ao artista não repugnou o que segreda a consciência do pensador, e em “A Bagaceira” se repudia a vanglória de Wilde ante os seus juízes, se é possível verificar neste romance a existência de ideias, como eixos de esferas sentimentais, de vida meramente refletida, quero dizer, sentida, essas ideias serão as de quem, defendendo a terra nordestina, não tem dela e do homem que a ocupa, nos seus vaivéns desesperados, senão uma visão de melancolia e de tristeza mas também de orgulho e de amor. Porque os vê, a ela e a ele, desamparados, desprezados, mas sabe que ambos, ao mais leve impulso de generosidade, ou melhor, de “inteligente patriotismo” dos que dispõem dos recursos da nação, facilmente se refazem de todas as feridas, de todas as inclemências, e cantam tão alto como o que mais cante o que valemos material e moralmente.

É, pois, na obra do historiador e do cientista, que estão as pedras angulares desta construção artística. Esta é a configuração estética de um mundo já perfeitamente observado e meditado, do qual se pode dizer que a beleza e o sofrimento acabaram por transformar a observação e a meditação em chama de amor e de poesia.

Assim é no “A Paraíba seus Problemas”, que se apresenta pela primeira vez o homem nordestino no que ele tem de mais dramático, na feição endêmica da sua criminalidade, tão bem resumida na mensagem apresentada à Assembleia Legislativa pelo Dr. João Capistrano em 1854, citada por José Américo de Almeida: “Uma das causas mais fecundas de assassinatos premeditados é a vingança de atos atentatórios da honra do sexo feminino, e depois a vingança do sangue derramado, tomada pelos parentes da vítima”.

É a própria paisagem, na violência da sua mutação. No capítulo “Terra Ignota”, ele, mais de uma vez, conhece todas as ousadias do pincel d’”A Bagaceira”.

“E, ao primeiro viso de desprazer, em que a flora agressiva senhoreia a paisagem desnuda, sucede, inopinadamente, a ressurreição das primeiras chuvas, de uma nuvem que passa, como se a folhagem tivesse caído do céu ou a água se congelasse reverdecendo no manto da babugem.

E a paisagem tragicamente humanizada, não menos vivamente que a outra, na sua ideação. Através outro capítulo, “O Martírio”, é a mesma interpretação do sofrimento da terra e do sofrimento do homem, sob a ironia do sol: “O ano de 1878 entrou com chuvas falazes. Essas negaças conspiravam contra a população espavorida. Algumas pessoas mais desprevenidas chegaram a retornar ao centro de seus reduzidos interesses.

Mas, de repente, o céu se distendeu, serenamente, numa ironia de ouro sobre azul que era um símbolo de miséria e de morte. Principiara desnudando as árvores e acabava tirando a camisa aos maus grados fazendeiros.

E recomeçou o êxodo. A onda humana derramou-se, a crueza da canícula, pelas estradas combustas, sem uma sombra acolhedora.

Eram figuras sumidas, escavadas por um regímen alimentar insuficiente e tóxico, que mal se equilibravam nos esqueletos descarnados. E vinham de muito longe e não sabiam aonde iam.

Os pais marchavam sobrecarregados de crianças que, minadas pela fome, “voltavam ao estado de engatinhar”. Mas esses fardos iam ficando ao largo das jornadas derrubados pela fadiga e pela inanição.

Os menos débeis corriam ao encontro da peste, da desonra e dos enxames da mendicidade.

Não se pode determinar que destino teve essa mísera gente por tantos descaminhos.”

José Américo de Almeida é, pois, como romancista uma realização do poeta que Euclides da Cunha julgava adequado ao nosso temperamento histórico: um homem de ciência que sabe cantar.

É, para mim, um caso bem mais complexo, e em que se revela, de modo, desta vez, impressionante, quanto a nossa extremo-ocidentalidade permanece ainda em perfeita união com a angústia do homem europeu.

Em “A Bagaceira” o que há é o despojamento da individualidade (que contém três quartas partes dos chamados valores culturais do Ocidente), a volta à personalidade, à crença, à fé maior na simplicidade dos processos intuitivos, para além do que eles têm de propriamente estéticos, e nos limites do que eles são como simples processos de vida.

Em José Américo de Almeida, graças a Deus, a simplificação (visivelmente não procurada) não se altera em desvios mórbidos de auto adoração literária. Nele se mantém o equilíbrio entre o homem culto e o artista. Ele nem é o puro wildeano nem o vapor do nada ou a aspiração ao nada em que se resolve, afinal, a curiosidade de alguns artistas contemporâneos.

Mais explicitamente: despojando-se do seu aparelhamento científico, o artista não se afasta do homem culto, pelo contrário, funde-o mais intimamente à sua experiência pessoal. E pôde, assim, ser espontâneo sem que a ternura ou a violência tomassem, nesta espontaneidade, um sentido antirracional, ou puramente animal, dado que o super-humano não é de conquista natural.

Gazeta de notícias, 4 de abril de 1928.

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