Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Resposta a Plínio Barreto

Plínio Barreto

Jackson de Figueiredo.

Li o artigo que o Plínio Barreto publicou n’“O Estado de S. Paulo”, de 17 corrente, em momento bem triste da minha vida, logo após o falecimento de Moysés Marcondes, o tipo do homem cristão, encarnação da ponderação e da bondade.

Lido naquele momento, o artigo me provocou mais do que tristeza. Alguma coisa parecida com indignação. De fato, era a reincidência nas mais superficiais acusações, e, desta vez, levadas à extremos de gratuidade. Tive desejo de não responder e, do meu silêncio, nem aceitar os elogios, nem levar à conta de crítica o que era somente mal disfarçada vontade de afirmar o contrário do que afirmo, isto é, vontade de justificar e glorificar a revolução e seus dogmas.

Por mais humilde que seja, considero, porém, que tenho obrigações para com a opinião pública brasileira, e bem pesados prós e contras, não me é pequena honra a atenção do redator chefe do “O Estado de S. Paulo”, o que equivale dizer, do jornal que mais insidiosa e sabiamente tem concorrido para o envenenamento geral do país, fortaleza, entre nós, a mais bem montada, da mentalidade judaico-liberal-revolucionária.

Venho, pois, responder a Plínio Barreto, e obedecendo mesmo à ordem das suas sugestões, de que a primeira alcança, penso eu, uma generosa configuração das minhas desorientadas excelências…

Plínio me proclama “um homem excelente, dotado de ótimas qualidades, dos melhores propósitos”. Mas, “deploravelmente iludido a respeito de muitos homens e de muitas coisas”. E isto apesar de sermos, eu e os demais batalhadores d’“A Ordem” e do “Centro Dom Vital”, “incontestavelmente inteligentes”. Muito bem, aqui estão os meus agradecimentos. Plínio Barreto sabe, de ciência certa, quanto o estimo. Sabe que o considero um homem de bem.

Sabe ainda que admiro a sua inteligência, e que é por isso mesmo que lamento vê-la a cada dia aproximar-se mais da esterilização e do nada, pela pressão das paixões e dos preconceitos políticos do meio em que se move. A vida levou Plínio Barreto a ser o soldado, o aliado do oposicionismo paulista, de que “O Estado de S. Paulo” é, realmente, a mais poderosa máquina de guerra.

Que é, porém, “O Estado de S. Paulo”?

O que já deixei dito e, mais explicitamente: um grupo de primários judaizantes, o que significa: mediocrizantes e desmoralizantes, não porque, moralmente, desejem o mal do país, mas porque a vaidade da própria grossura metálica não lhes deixe ver o que agitam e animam de paixões anárquicas, inumanas, niilísticas, antinacionais, enfim.

Mas o que principalmente quero dizer a Plínio Barreto é o seguinte: se discutimos doutrina e fastos doutrinários, não devemos dar atenção a excelências ou falhas pessoais de doutrinadores. Na prática, a observação de Joseph de Maistre é, às vezes, para meditar-se: se Edmundo Bittencourt está deste lado é o caso de passar para o outro. Mas o argumento é quase sempre falho: quem nos dirá que do outro lado não esteja Medeiros e Albuquerque?

Seja como for, porém, em questão de doutrina, o que se deve examinar é a doutrina. Porque se, como reconhece a Igreja, o juízo “per modum inclinationis” do homem virtuoso, tem grandes probabilidades a seu favor (de onde dizer Aristóteles que “o homem virtuoso é a medida e a regra das ações humanas”), é o próprio Santo Tomás que distingue a outra maneira e a mais geral de ter autoridade para um julgamento, isto é, pelo saber, “como se dá com aquele que, instruído na ciência moral, pode julgar da virtude sem ser virtuoso”.

Não estou aqui, pois, para esclarecer, ainda uma vez, o que tenho lido como homem de partido neste período revolucionário.

O que nos interessa é a doutrina que me levou a formar no partido daqueles que, bem ou mal, pouco importa, vêm, como podem, combatendo a revolução, isto é, restringindo, quanto possível, e com meios de que dispõem a ação dissolvente, desagregante, sumamente leviana, criminosa e impatriótica dos que fizeram da violência e da guerra um meio de normal de reivindicação política, com a agravante de terem animado a indisciplina das forças armadas, quando estas devem ser, em toda a parte do mundo, o núcleo de maior resistência a toda infiltração de desordem e anarquia.


Plínio Barreto chama a esta atitude piorar o que há no Brasil, lançar mão de uma calamidade para afastar outra calamidade, a da indisciplina (que ele reconhece estar mesmo lavrando entre nós).

Esqueceu somente de provar com “fatos” o porquê pode chamar “calamidade” a pregação de uma doutrina contra o que ele próprio julga atual e ruim.

Não posso, deste modo, discutir o que ele guardou no segredo de sua alma, e, para alcançar os fios das suas ideias gerais, sou forçado a discutir mais detidamente algumas das feições particulares de sua larga acusação.

Em primeiro lugar, o que ele diz com relação ao estado atual da Igreja no Brasil.

Julga Plínio Barreto que, se a corrupção das massas se dilatou, a culpa é da Igreja, foi porque os seus dirigentes perderam o segredo de conquistá-las. Mas uma coisa, pensa ele, é preciso conservar, e é a separação da Igreja e do Estado, indiferente, já se vê, à ideia que pode tocar qualquer homem de boa fé: e se a união desses melhores resultados, num país em que a indisciplina moral já está tão generalizada?

Não, o que Plínio Barreto sabe ver é que “ninguém, a não ser a Igreja, tem culpa da descristianização do Brasil”.

É afirmar demais, mas natural em quem se mostra absolutamente ignorante da economia espiritual da Igreja. Supõe o redator chefe d’“O Estado de S. Paulo” que a Igreja se apresenta como detentora do poder de alterar a natureza humana, ela, a Igreja, que afirma, sob todos os tons, que a própria graça divina, respeita a nossa natureza e que Jesus Cristo não veio destruir a antiga lei, e sim confirmá-la, dar-lhe complemento.

A Igreja, que vê na distinção de poderes, um dos pontos em que o cristianismo trouxe complemento à antiga lei, jamais fez de distinção sinônimo de guerra ou mesmo de indiferença (esta, aliás, absolutamente irrealizável), e não se mostrou nunca descrente dos benefícios da união e da aliança, o que pode se dar sempre entre coisas perfeitamente distintas. É preciso não confundir o caráter da Igreja – de sociedade perfeita – com livre exercício dos poderes reclamados por este caráter, confusão esta que foi o erro de Mater, conforme Deumeran.

A doutrina da Igreja, a respeito, é em resumo, a seguinte:

“A sociedade civil saca sua origem e seus direitos da natureza: Deus quis que ela existisse para ajudar o homem a realizar imediatamente o seu fim temporal, o qual, segundo a economia providencial, é apenas um meio para atingir o fim superior, a felicidade do céu”. De onde “é ir contra a ordem natural das coisas querer libertar o Estado de obrigações que, unindo-o a Deus, lhe dão por isto mesmo, contra o espírito revolucionário, o único apoio estável e permanente” (Deumeran). É a palavra de um mestre. Mas a palavra infalível ainda torna mais claro (para a consciência dos que lidam no Centro Dom Vital) o porquê nos depararmos na atual situação de indisciplina e grosseria de costumes. “Aqueles que querem destruir todas as relações entre a sociedade civil e os deveres da religião – reza a Humanum Genus – não cometem só uma injustiça, mas, pela sua conduta, provam a sua ignorância”.

Vê, pois, Plínio Barreto, que não podemos concordar com a sua opinião, de que a Igreja é a única culpada da situação atual, quando tem contra si, a onipotência do Estado, do Estado que, insensatamente, querendo ser neutral, tem, de fato, dado força a todas as tendências, a todas as paixões revolucionárias. Vê, também, o mesmo querido amigo que a doutrina do Centro Dom Vital não é produto de vaidade individualista: é a doutrina da verdade, quero dizer, é a única autorizada pela Igreja Católica, Apostólica, Romana.

Agora, para discutirmos com seriedade, à altura da estima que, há tanto tempo nos dedicamos, peço a Plínio Barreto que aponte os textos de minha obra ou dos que acompanho que preguem a ordem sem justiça ( “a ordem pura e seca e o respeito à autoridade nu e cru”!!) .

Enquanto não o fizer, considero que praticou uma leviandade.

Mas desde já adianto o seguinte: será que Plínio Barreto já se terá levantado, em nosso país, com mais liberdade, com mais rudeza do que eu contra atos injustos da autoridade?

Se quiser, posso dar-lhe a prova de que, mesmo em pleno estado de sítio, e em relação a governos de que todos me dão como aliado, sempre o meu maior cuidado foi o da justiça, dando-se somente que não disfarço ânsias revolucionárias com declamações sobre a justiça, como parece ser tradicional na redação d’“O Estado de São Paulo”, e mais ainda: sei que justiça política não é coisa geométrica, e sei também que nos momentos de perturbação da ordem pública, nem sempre é possível fazer-se justiça com a mesma serenidade com que é possível escrever um artigo venenoso e hipócrita na redação de um jornal sistematicamente oposicionista, para o qual jamais houve um governo que não fosse uma gangrena de tirania e de ódio.

Também desafio Plínio Barreto a que documente as suas asseverações a respeito do que temos afirmado em relação ao princípio de autoridade.

Eu daqui assim o desafio, porque reafirmo que não é capaz de mostrar um só texto nosso que não esteja informado pela doutrina da Igreja.

O que é bom, porém, não confundir a Igreja com que Plínio Barreto pensa ou diz que ela é, e muito menos com o que ele desejaria que ela fosse!

Aí, a discussão não poderia ter caráter de seriedade. Plínio Barreto tem da Igreja – como organização social – uma noção de maus compêndios de história, e de ainda piores compêndios de filosofia – no que diz respeito ao que ela prega sobre relações da moral dogmática com a moral positiva.

E é por isso que Plínio Barreto (autoridade na matéria) anda todo temeroso de que o Centro Dom Vital marche para a impiedade e a heresia.

E lá vem o pobre S. Francisco de Assis e os seus cardeais… E não se sabe porque não aparece Santa Joana d’Arc e o seu bispo…

Mas, vem coisa melhor: lá está o Cristo de mel de abelha, o Cristo de “jeune fille”, de uma humanidade tão doce, tão mansa, tão açucarada que mais parece o Sr. Khrisnamurti da xaropada teosofista.

Pois fique certo o caro Plínio Barreto que o nosso Cristo, o Cristo que adoramos no Centro D. Vital, é somente o dos Evangelhos e da Igreja. Este, para ser misericordioso, não precisou nunca, como Deus que é, esquecer a justiça, e nem mesmo desrespeitar, no homem, as leis de necessidade que ele próprio imprimiu à sua natureza.

Daí fazer distinção constante entre bons e maus. Daí aconselhar que não se sacuda pérolas aos porcos. Daí não ter pedido licença aos pacíficos liberais de São Paulo para prevenir, deste modo, sobre a sua doutrina: “Não julgueis que vim trazer a paz à terra; não vim trazer a paz, mas a espada”.

Eis porque, como na guerra, nos mantemos, em questões doutrinais, nós, os soldados do Centro D. Vital. Nós sabemos, tal é a natureza do homem, que nem sempre é possível obter a verdadeira paz, isto é, a ordem com dignidade, sem violentos ataques ao mal. E tudo o mais será teosofismo, será espiritismo, será o que quiserem, mas não Cristianismo, não uma doutrina que tem a experiência do homem e a revelação das leis supremas que regem a sua natureza corrompida, a sua natureza decaída.

E o que dizer mais das restantes acusações de Plínio Barreto, se elas não provam outra coisa senão que tresleu os nossos livros?

Quer Plínio Barreto ainda uma prova da nossa sistemática brutalidade para com os homens que ainda representam, neste momento, a revolução e a anarquia?

Pois bem. Leia, no prefácio do meu “A Coluna de Fogo”, o que lá está relativamente ao meu ensaio sobre a obra poética de Tasso da Silveira.

“Com este ensaio – digo eu – dou prova de que sou capaz de aplaudir também esta ou aquela revolução. Esta, é preciso dizer, é como o jogo, o que os teólogos chamam em si indiferente. O sentido em que se faz, os princípios que a orientam é que lhe dão fisionomia moral. E os princípios morais católicos, não só imensamente a restringem, como a fazem desnecessária, em qualquer manifestação violenta, pois a verdade é que a atividade espiritual do católico pode ser considerada uma permanente revolução contra o domínio tirânico da natureza decaída, isto é, da preponderância do instinto e da paixão.”

E logo após: “Isto esclarece o que a muitos imbecis tenho em vão tentado explicar, ou seja, que nem a revolução a mão armada me horroriza mais do que a revolução legislante, deliberante, etc., nem ajuízo do caráter dos que tomam parte da revolução armada (homens, quase todos, muito diferentes dos fabricadores, dos fazedores, dos guiões da Revolução) do caráter deles não ajuízo, digo, nem melhor nem pior que do caráter dos pacíficos conservadores, bonzos do judaísmo universal, parasitas da árvore pagã do Estado moderno ”.

E ainda depois: “Se os governos constituídos, por todo o Ocidente, desde a implantação do regime revolucionário, merecem o apoio do homem cristão, é porque os movimentos de revolta nada mais prometem que um maior arbítrio de massas ignaras. Além disto, mesmo esses governos de contradição e sofismas, têm uma função “policial”, que, se não contribui para a felicidade de povo algum, é, pelo menos, garantia de menor infelicidade. E como é na triste paz social que se vai refazendo, pouco a pouco, o senso político cristão dos povos repaganizados pelos Direitos do Homem, é essa paz, e a esperança que ela acalenta, o que, de fato, defende o homem cristão, quando parece defender a contraditória e inumana (o que é muito pior que desumana), ordem legal dos governos democráticos, republicanos, etc!”

E isto logo ali no prefácio d’“A Coluna de Fogo”!

Não parecerá ao caro Plínio que eu, ao escrever o que aí fica, estava a adivinhar o seu artigo? Pois se quiser, poderei citar-lhe muitas páginas mais em que defendo até, do ponto de vista do caráter, os que fizeram a revolução com armas na mão.

Tudo o mais o julgo sem importância.

Violência de linguagem?

Nunca a usei contra o bem em geral nem contra os homens de bem, em particular. Plínio Barreto não é a primeira vez que discute comigo e poderá dar testemunho do que digo. Ele, com certeza, tem conhecimento do modo delicado e gentil com que me têm tratado os pacíficos regeneradores do país.

O caso do Laet? Parece incrível que Plínio Barreto fosse capaz de lançar mão desta autoridade se, como meu amigo, na polêmica, não tive com aquele velho mestre, não se limitou a ler somente o que ele escrevia.

Mas se leu o que escrevi como justifica a boa fé do seu atual pedido de ajuda à sombra do ilustre morto?

Creia Plínio Barreto que eu tudo farei para não revolver nas cinzas deste passado de ontem, mas saiba – se não sabe – que me defendi e defendi quando escrevi no período do governo Bernardes, e a favor do governo Bernardes, sempre e sempre com palavras textuais do mesmo Laet.

A pena de morte? Discuti-la com quem a julga menos moral, menos aceitável do que o assassínio político, contanto que parta de um revolucionário?

La véritable cruauté” — penso eu como um dos mestres da revolução anti-liberal — la véritable cruauté, et feroce et cannibalesque, consiste à encourager les coquins a coquiner, par des sanctions lentes, lenitives, défaillantes, et à ne trancher les criminels que peu a peu, des talons vers le col, par des rondelles hésitantes et timides”.

Não parece a descrição da espécie de crueldade que mais mal nos tem feito?

Ademais, se a Igreja jamais pronunciou sentença capital, não existindo no seu Código a pena de morte, esta jamais foi encarada por nós, do Centro D. Vital, senão de acordo com a doutrina católica. A censura de Plínio será, pois, ainda uma vez, à Igreja e não a nós, que preferimos ficar com a repreendida, e bem pode ser que também com alguns povos a quem repugnará beber, nas puras fontes d’“O Estado de São Paulo”, lições de civilização.

Fiquemos, por enquanto, por aqui.

Aceite Plínio Barreto os desafios que fiz à sua boa fé, e então, veremos o resto.

Gazeta de Notícias, 28 de março de 1928.

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