Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Igreja e política

Jackson de Figueiredo

Está muita gente, entre os católicos, que realmente são católicos, mergulhada em espanto e como que assombrada diante da folha de serviços prestados pelo sr. Nilo Peçanha à Igreja católica, no Brasil, folha esta agora publicada sob a responsabilidade do exmo. revmo. sr. D. Abade de S. Bento, para confusão, como diz “O Imparcial”, dos que exploram os sentimentos religiosos do nosso povo, em prol do sr. Arthur Bernardes.

Não sei porque o espanto, não vejo de que assombrar-se… S. ex. revma. o sr. D. Abade não é exemplo único em nossa vida, dessa singularíssima e admirabilíssima posse de boa saúde cristã, à sombra protetora dos grandes liberais que, em nome da Maçonaria, tem feito mais altos, mais formosos e mais convidativos os muros da cidade anticristã no mundo moderno, tão bem estudada já por D. Paul Benoit e tantos outros.

O abade ilustre sabe perfeitamente que juízo faria um D. Felix Sarda y Salvany, por exemplo, desse amor assim confessado, em confissão em que abundam tantas provas de sacrifício de ambos os lados: o sr. abade curvando, humilde, a cabeça sacerdotal ante o poderoso tripingado [maçom], e este, esmagando o seu ardente liberalismo, a amparar, a ajudar o filho de um país cujas instituições políticas eram até então tão pouco democráticas, o chefe de uma casa da Igreja, em que, justamente, quase não se fez ainda concessão ao igualitarismo revolucionário… Comovedor e edificante!

Mas até ai creia a imprensa do sr. Nilo Peçanha e creiam os crentes espantadiços que à Igreja católica pouco interessam essas coisas. Do sabor um pouco acre que deve ter a amizade de um frade, quase príncipe e ainda por cima alemão, com s. ex. o sr. Nilo Peçanha, liberal vermelhão nestes brasis, e membro da Maçonaria Universal, nada se deve dizer, senão que a história se tem repetido e se repete, no Brasil, daquele engano de alma ledo e cego, que a fortuna não deixou durar muito nas plagas europeias.

À imprensa do sr. Nilo cabe tirar disto bom proveito. A nós, católicos brasileiros, não obrigados a obedecer ao sr. Abade, o caso pouco interessa. Pôde deixar-nos na alma um pouco de tristeza, mas só isto…

Uma coisa única vale para nós neste momento, e já se vê que não me refiro somente aos católicos do Rio de Janeiro, mas aos católicos de todo o país: a palavra dos nossos Bispos, quando ela diretamente se faz ouvir.

Já sabemos que grande número deles falou alto e bem claro sobre atitude que devemos ter no pleito a cujas peripécias vamos assistindo. Mas há Bispados em que os que governam se têm conservado silenciosos, como alheios à luta. Estarão por isso, os súditos desses Bispos, entregues a si mesmo, desorientados, divididos nas suas opiniões? Estarão se o quiserem, se quiserem esquecer que, além das obrigações diretamente determinadas para com a Igreja, mil outras existem, que é mister cumprir também, e decorrentes daquelas, pela lógica mesma das relações entre os princípios que nos regem. E nem é preciso que a cada passo esteja um Bispo a relembrar deveres que a Igreja já tem cem vezes esclarecido. O católico que hoje os esquece é porque os quer esquecer e não porque ignore o que lhe ordena a Igreja pela palavra dos seus Chefes Supremos, em múltiplas ocasiões dirigida a todos os povos. De 1738 aos nossos dias, por exemplo, a Maçonaria tem sido absolutamente condenada na sua existência e nos seus processos pelos Pontífices Romanos a quem, tanto nós, crentes leigos, como todos os abades e até Bispos, devemos obediência e acatamento.

“Evite cada um ter laços de amizade e de familiaridade com pessoas suspeitas de pertencerem á Maçonaria ou a sociedades que lhe são afiliadas.”

São palavras do Santo Padre Leão XIII, resumindo, por assim dizer, o que já haviam dito os seus antecessores. Leão XIII é uma das maiores glórias da Igreja visível e militante; se há exagero ou erro nestas palavras, não sei que a Igreja universal já os tenha condenado. E não ha sofisma, venha ele de quem vier, de grande ou de pequeno, de um simples sacristão da roça ou da aristocrática figura de um abade beneditino, que possa merecer mais fé, a um verdadeiro católico, que o que tem por defensor o vulto daquele grande Papa, que não pode, de modo algum, ser acusado de perturbador da paz universal. Pois nem ele temeu condenar com tanto rigor a seita poderosa, que se alia, na pessoa do sr. Nilo Peçanha, ao amor da grande e imortal Ordem Beneditina.

Os católicos em geral nada têm que ver com os erros individuais neste domínio, tão agitado agora, da política nacional. Pouco importa que a apagada figura do sr. Cônego Galrão vibre de tempos para cá em defesa, não do sr. Seabra, mas do sr. Nilo Peçanha e da sua política revolucionaria.

Pouco importa que católicos de reconhecido mérito estejam militando na mesma confraria em que brilham tão conhecidos inimigos da Igreja. Só os srs. Bispos teriam o direito de condená-los ou, pelo menos, esclarecê-los publicamente. Nós, os que ainda resistimos aos sofismas da politicagem que tudo quer confundir, só temos que zelar por nós mesmos e não esquecer nunca, mesmo diante dos exemplos mais desnorteadores, que, acima das opiniões individuais, acima de todos os indivíduos, estejam onde estiverem em altura, na hierarquia católica, está a palavra da Santa Sé, está a sabedoria dos Pontífices Romanos. Quem não está com a Igreja está contra a Igreja. Esta é que é a verdade e tudo o mais é puro, puríssimo sofisma, e já muitas vezes despedaçado pela lógica dos fatos.

27 de Novembro de 1921.

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