Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Exército e política

Jackson de Figueiredo

Em minha vida de escritor, humilde, é bem verdade, penso que tenho dado sobejas provas do mais radical entusiasmo por tudo quanto diz respeito ao engrandecimento das nossas classes armadas.

Se é militarismo pugnar por esse engrandecimento, por um respeito mais vivo às nossas tradições militares, por um mais efusivo amor ao nosso soldado — sou um militarista de convicção.

Uma coisa, porém, é amar o soldado — guarda da integridade nacional, exemplo de disciplina, amostra permanente da capacidade de organização, viva imagem da honra, do pundonor da sua pátria — outra coisa amar, em alguns homens armados, a quem a nação confiou algumas armas, amar nesses homens, digo, o instinto de prepotência, o gosto do mando, a tendência ao arbitrário e ao desprezo da lei. Uma nação em que a ordem militar se sobrepõe à ordem civil é, politicamente, sempre foi, uma nação que está a morrer, uma pátria de revoluções, uma fornalha de rancores e odiosidades, um cenário de negação — já não direito da desmoralizadíssima Liberdade dos lemas liberais — mas das liberdades por que todo homem consciente se deve bater.

Ora, justamente o que se tem louvado nos empreendedores da última reunião do Clube Militar são essas péssimas manifestações de espírito soldadesco mas não propriamente militar, e que todo o mundo supunha já não eram mais possíveis da parte de um Exército que tinha conseguido, desde Prudente de Moraes, com heroicos sacrifícios das suas vaidades, consolidar o regime republicano.

E realmente não há espírito militar onde não estiver o espírito de ordem e disciplina, no seu máximo grau de perfeição.

Entretanto, tudo leva a crer que ainda não passou a ser letra morta a da nossa Constituição republicana, que ainda subsistem os três poderes a que a nação delegou a direção da sua vida política. Bem ou mal constituídos, o certo é que há representantes desses poderes, que os cidadãos do Exército como tais reconheceram, representantes que ainda não se demitiram das suas funções, e o Exército não é, que me conste, nenhum poder outro que possa pretender dirigir e vigiar aqueles a que todos os cidadãos, soldados ou não, têm o dever de respeitar.

Basta ao regime a desgraça das Câmaras deliberativas, que os povos civilizados, mais tarde ou mais cedo, hão de pôr de lado, para conservar a própria civilização, depois talvez que todos eles experimentem o que são essas Câmaras no máximo do seu lógico desenvolvimento, isto é, assembleias de operários e soldados…

E nós onde já estamos?

Ninguém pode negar que o que se passa atualmente na capital da República é absolutamente anormal, e estamos, por assim dizer, num momento caracteristicamente revolucionário.

Não posso crer que o Exército tenha consciência do mal que está fazendo ao país, mas não há disfarçar com a declaração de que os militares, ultimamente reunidos, nada mais queriam que um simples exame pericial de uma carta atribuída a um dado político, e recheada de pesados insultos às classes armadas.

Não há quem ignore, e os militares não são mais ingênuos que o resto da nossa gente, não há quem ignore que a acusação ao sr. Arthur Bernardes nasceu da paixão politica, da vergonhosa exploração, puramente política, e da pior política que se vem fazendo após a proclamação da República.

E o que há a perguntar é o seguinte: que pode legalmente fazer o Exército após o exame pericial daquele ignóbil documento?

No próprio seio das classes armadas não faltou a voz do bom senso, que soube dizer com clareza que, no caso de ser verdadeiro tal documento (de carácter íntimo e, ainda mais, roubado) dada a retratação de seu autor — só uma atitude seria digna de um Exército não comandado pelo “Correio da Manhã”, e que não quisesse ultrapassar os seus direitos, em face da nação, que o organizou: a de esperar calmamente o que a mesma nação decidisse nas urnas, que este é, infelizmente, digo eu, o meio legal, único, de manifestar-se a vontade da nação, de conformidade com a sua Magna Carta, em cuja apressada elaboração têm os militares muitas responsabilidades.

Digam o que quiserem dizer os que julgam proveitoso o abuso da força, mas a verdade é que, dentro da lei, respeitada a Constituição, mesmo se o sr. Bernardes fosse o autor de carta tão incrivelmente impolítica, insensata e sobretudo imbecil — mesmo que fosse o autor daquele mal feito e reles atestado de maldade humana — se a nação o elegesse seu Presidente, se as forças políticas o elevassem à mais alta magistratura do país, o Exército nada mais tinha a fazer que acatar-lhe a posse, porque o Exército é órgão da nação e não a nação mesma, será o braço armado do país mas não a sua cabeça, e não lhe cabe, de modo algum, dirigir quem, de direito, o dirige. É mandatário e não mandante, é força que faz respeitada a lei mas não a lei mesma, e só é força útil e louvável enquanto a lei for como que o seu espírito, a força da sua força.

Tudo o mais é sofisma, é volta ao período anormal da consolidação da República, é desmoralização do Brasil, bem maior do que seria a elevação à Presidência do homem mais pérfido e mais ruim do mundo, pois um homem é coisa que passa, mas o Exército é força viva da nação, que não pode passar nunca, e em cujo seio um germe de desordem pode ter consequências as mais funestas.

Reunido o Clube Militar para decidir a questão da carta* (que é, no fundo, a questão das candidaturas, como de todos os modos diz a imprensa do sr. Nilo) pró ou contra o sr. Bernardes, a verdade é que estavam aqueles que ali representavam o Exército fora, absolutamente fora, das suas atribuições.

Ademais uma coisa têm esquecido os que vivem a proclamar que o povo brasileiro é solidário com esta miserável campanha de difamação pessoal, que não desmoraliza o candidato da Convenção (como parece que não desmoralizou o sr. Nilo) mas sim toda a política nacional; e o que está esquecido é que o Rio de Janeiro não é todo o Brasil. “Le genre humain estil donc tout entier dans les capitales? — já perguntava José de Maistre, justamente na sua obra magistral sobre a soberania.

Quando o Exército fez a República com um simples movimento de revolta nos quartéis do Rio de Janeiro, só o fez porque, erradamente ou não, era a República aspiração de todo o Brasil desde 1817, pelo menos. Qualquer imposição sua neste momento, teria consequências muito diferentes e a lição do governo Hermes, tão miseravelmente caluniado pelos mesmos órgãos que hoje caluniam o sr. Bernardes, não deverá ser nunca esquecida pelos que amam deveras a farda brasileira.

O que assombra no meio de tudo o que se vem passando é a passividade real do sr. Epitácio, é a sua não menos real paixão da espetaculosidade… Forças, todas as horas, a atrair, no centro da cidade, a curiosidade dos desocupados, e a desordem campeando como se tais forças fossem de papelão.

Chega a parecer que o sr. Epitácio neste momento da nossa vida política, é a única esfinge que há a decifrar…

Deus o proteja.

15 de Novembro de 1921

* Nota: Cartas Falsas – Nome com que ficaram conhecidas duas cartas publicadas em 1921 no jornal carioca Correio da Manhã, contendo ofensas aos militares e a Nilo Peçanha, e atribuídas a Artur Bernardes, então presidente do estado de Minas Gerais e candidato à presidência da República. O escândalo que se seguiu acirrou a oposição dos militares a Bernardes, que ainda assim foi eleito em março de 1922, mas enfrentou em seu governo (1922-1926) o movimento tenentista, início de um processo de ruptura política que desembocaria na Revolução de 1930.

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