Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

CELA TUERA CECI

Jackson de Figueiredo

A ordem a adotar na análise que empreendo tem que ser – e não a estranhe o leitor – diversa da que o título indica ou anuncia.

Trataremos primeiro d’ISTO. Que é ISTO?

A meu ver e de todo aquele que além de um pouco de vergonha, tenha um pouco de bom senso, ISTO é a República na sua fase atual.

Esta fase foi iniciada por Prudente de Morais.

Passado o período da chamada “consolidação republicana”, em que, às paixões que ameaçavam o novo regime adotado, fora preciso contrapôr a força – e foi o que fez Floriano – coube a Prudente o papel de domador da força, em nome da lei. E é fato que conseguiu levar a enxurrada militarista, caudilhesca, já sem nenhuma razão de ser em nossa existência coletiva, ao leito, estreito mas purificador, da legalidade, dando-lhe limites bem definidos no plano da ordem civil.

Desde esses dias que foram os primeiros, entre eles, de sombrias dúvidas e dolorosas perspectivas, a verdade é que a República, de repugnante, que tinha sido até então a todos os caracteres refletidos, passou a ser estimável, defensável, positivamente aceita pelo povo, que “bestificado” a vira proclamar-se.

Daquela vasa de agitadores nem tudo realmente desapareceu, mas, para honra da nação, verificava-se, dentro em pouco, que o Exército não lhe dava mais contingente digno de ser notado. A Revolução, no seu aspecto mais grosseiro, estava assim morta no Brasil, e tudo fazia crer que a República ia reafirmar, diante do mundo, o que, nos seus últimos decênios, o Império tinha feito reconhecer como verdade, isto é, que este país não pode ser confundido com as esfrangalhadas republiquetas hispano-americanas, reduzidas pelo militarismo a símbolos de ridículo político.

Mas a todos os seus ataques tem resistido, até agora, a ordem jurídica, a consciência da nação, a ela irmanada, desde que o sectarismo dos constituintes se transformou na reconhecida moderação dos interpretadores da nossa lei básica.

Um momento houve, porém, em que as circunstâncias pareciam forçar o Exército a sair do domínio da ordem, do plano superior em que estava, para castigar a audácia dos profissionais de desordem e desrespeito. Foi ao tempo em que exercia a suprema magistratura o Sr. Marechal Hermes da Fonseca… Pobre marechal! Nunca foi um homem público mais insultado, mais vilipendiado, mais caluniado. E ele era, no entanto, duplamente chefe, por assim dizer, das nossas forças armadas…

Há colunas do “Correio da Manhã” e d'”O Imparcial” desses tempo, que ficaram e ficarão como modelos de linguagem desabrida e insultuosa. Um homem de honra não poderá nunca transcrever o que então foi escrito contra o Sr. Marechal Hermes. A sua vida privada assim como a sua vida pública, no que tinham ambas e podem ter de mais sagrado, foram focalizadas pelo ridículo mais agudo e a mais grosseira chalaça. Quem não acreditasse na existência do Du’du’, não risse da “última do Du’du'”, não jurasse sobre o “cora-jaca”, estava perdido diante dessa famigerada opinião pública, que é feita, no Brasil, por aqueles que mais sabem descompor e injuriar. Tornou-se impossível a discussão serena dos fatos, e à violência dos insultadores parecia só ser possível responder com a violência que resultasse de um governo ditatorial, saído do seio das próprias classes armadas.

Resistiu, entretanto a vítima de tantas misérias, resistiu o Exército, todos os dias menoscabado, à tentação do poder ilegal. Ficou, no coração dos homens sinceros, amor, pelo menos, respeito àquele pobre homem em quem os seus inimigos tinham feito resplandecer desinteresse, moderação, culto da lei. Ficou, na consciência dos patriotas, a convicção, a certeza mesmo de que, estando a lei sob a guarda de um tal Exército, não poderia descer mais o Brasil ao regime da arbitrariedade, do caudilhismo, do tenentismo, de que são vítimas povos irmãos no continente. O Exército, com vencer-se a si mesmos, nos seus instintos de mando e de vingança, vencera, por fim, ao lado do bom senso nacional, os inimigos da República, e foi essa talvez, mesmo sem esquecer os seus aspectos dolorosos, e as negras tintas da paisagem invadida pela onda de lama, foi essa, talvez, a mais bela hora do regime republicano, no Brasil, dado o que escondia sob as suas repulsivas aparências; a serenidade da lei, a consciência de que a autoridade nunca será mais forte nem mais respeitada por despir as roupagens, que lhe são próprias, e vestir a falsa armadura da força bruta, divorciada da ordem legal reconhecida.

Eis o que se pode dizer, ou se podia dizer d’ISTO… Mas AQUILO, que é AQUILO?

Atentem bem os patriotas nos contornos indecisos, no aspecto, entre nojento e amedrontador, da enorme larva que se move agora sobre um monturo de ambições, lá, naquelas regiões inferiores em que a liberdade é assim, enquanto não brilha ao sol com as feições do crime, de todos os crimes juntos, desde o assassinato dos bons até a glorificação dos infames…

Será mesmo a ressurreição do rubro militarismo que, entre nós, como que é paradoxal encarnação do instinto revolucionário?

Então, CELA TUERA CECI…

Aquilo que ainda não é mais que larva, que informe e monstruosa ameaça, se vem mesmo a tomar formas precisas e assentar as pesadas patas sobre o chão republicano, pode-se jurar que fará a ruína de nossa cidadania, que será uma espécie de provocação ao suicídio nacional e, antes do mais, a desonra, para sempre, do espírito de ordem em nossa pátria.

Não há país em que a Revolução possa ser crime tão monstruoso como no Brasil. Este imenso território, se se divide a sua rarefeita população em grupos hostis (e por que a revolução não nos trará uma vez a guerra civil? Por que há de ser ela sempre a arma vitoriosa de levianos e inescrupulosos?), se perdermos, um dia que seja, a unidade que tem sido como que o milagre permanente em nossa história, é certo que poderá ser pasto de ambições estrangeiras, e ninguém deve esquecer que ele é bastante grande para contentar a todos numa divisão entre muitos, de cuja rivalidade esperamos a nossa salvação…

Mas será possível, no centenário da nossa Independência, um crime como esse que se vive a profetizar, de todos os lados, neste momento?

E o Exército, o Exército, que sofreu ao lado sr. Marechal Hermes, todos os apodos, todos os insultos, poderá servir agora de instrumento a tamanha perversão moral?

E que papel é o deste mesmo marechal Hermes, meio agora de todas estas ameças à República? Está morto?

Não tem mais nenhum valor entre os seus companheiros de armas?

Porque não é possível crer que se queira revelar, nesta hora, que deve ser “a hora dos homens de caráter”, não mais a caricatura de imbecil, que dele fizeram os seus inimigos, mas uma sombria caricatura de soldado e defensor da República.

Ainda há, no Exército, dois ou três positivistas menos desfrutáveis que o sr. Bagueira Leal. Dizem que são ouvidos sempre como gente que guarda magestade.

A eles estas palavras de José de Maistre, a quem Augusto Comte não chamaria de imbecil…: “A l’instant ou l’armée se mêler de la politique, l’Etat sera dissous”…

Não serão ingênuas estas palavras em relação ao caso especial do Brasil?

Não é a própria República a filha querida de uma revolução vitoriosa?

Pois bem: que se sucedam as revoluções e depois se verá a que carcaça ficará reduzida, não só a República, mas o pobre povo que já se lhe havia entregue de corpo e alma.

O Jornal, 12 de Fevereiro de 1922.

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