Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

Cartas a Camillo (II)

Não compreendeu, v., talvez, meu bom amigo, o porquê se havia de mostrar-lhe que o Sr. Antônio Sérgio dava à inteligência a mesma significação de Instinto, (e, de fato, além de empregar a própria palavra, já a antecedera do termo “pendor”) – disse-lhe eu, no princípio da minha primeira carta que aquele vigoroso escritor se caracteriza por um ultranacionalismo, um ultraintelectualismo, que é o sinal do mais doloroso individualismo, isto é, daquele em que o indivíduo reage com todas as suas forças contra as paixões, os “instintos”, os “pendores”, as forças obscuras que também fazem a “totalidade humana”, e é mister iluminar com a inteligência para governar a vontade.

Mas também não lhe disse eu que o Sr. Sérgio não podia exprimir-se daquele modo por ignorância e que é ele até um apaixonado pelo culto das ideias e da objetividade?

Nada de sentimentalismos, instintivismos etc., para o sr. Antônio Sérgio.

Quando, pelo contrário, se lhe depara um saudosista, um sentimental ou um puro verbalista como o Sr. Junqueiro, em sua terra, o que logo lhe atira às faces é aquela pergunta usada pelo grande Antero numa das discussões: ” Mas, exmo. senhor, será possível viver sem ideias? – Esta é a grande questão”.

Eu, meu caro Camillo, tanto ao excelso Quental como ao ilustre escritor que lhe interessa, diria, sem medo de errar, que a grande questão não será talvez a de ser ou não possível viver sem ideias. O determinar as ideias sem as quais não se pode viver é que será talvez a magna questão.

Mas não divaguemos, pois preciso, em rigorosa justiça, dizer-lhe que, de fato, se existe, a meu ver, uma real contradição na obra do Sr. Sérgio, essa contradição não se origina na ignorância do escritor, mas sim é a inevitável contradição de todos os pensadores que, por injustificável capricho individualista, desprezam os critérios clássicos da psicologia.

Assim é que em toda esta questão, de que trato, o que se evidencia, após um certo esforço da nossa parte, é que o Sr. Antônio Sérgio nos seus “Ensaios” de pedagogia não quer empregar jamais a palavra “faculdade”, palavra que tem contra si alguns séculos de bons serviços à causa da ordem e da Inteligência, e é, por isto mesmo, nestes tempos de desordem e desinteligência, palavra supremamente desprezível.

Felizmente, porém, já os mesmos individualistas, como o Sr. Sérgio, – individualistas no sentido em que nós, católicos, vulgarmente empregamos esta palavra – já os mesmos individualistas, como o Sr. Sérgio, estão absolutamente descontentes com os resultados da sua vitória, deles, contra as medidas impostas pela Igreja, em todos os tempos, aos que se dão à perigosíssima função de pensar para os demais homens, isto é, de os guiar em nome da razão. É que, como dizia Joseph de Maistre, o veneno é pelas suas consequências que se deixa conhecer…

Eu bem compreendo o que quis exprimir o Sr. Sérgio – veja lá, meu caro Camillo! – no sincero desejo de defender os direitos da razão neste pandemônio de semideias, que é o em que se debatem os dignos filhos da Reforma, ou melhor, da renascença do paganismo, sem mais o senso da beleza…

Se v. quiser ver claramente qual é o pensamento do Sr. Sérgio, volte à página 125 dos seus “Ensaios” e então verá que o que ele quer dizer, com chamar de Instinto à inteligência, é que não está em nós o deixar de pensar, se somos homens, é que não está em nós vivermos sem ideias. Eis, exposto o seu pensamento: “a inteligibilidade do universo não é uma conclusão da ciência, mas a pressuposição que a fez nascer; achamos o universo inteligível porque partimos do pré-conceito de que ele o era, filho do nosso instinto de inteligibilidade, etc.”

E estende-se uma página para amparar uma tal exposição do que nós diríamos em poucas palavras, isto é, que o homem é um ser racional, ou que a essência do homem é ser racional, ou ainda, como Pascal – a característica do homem é a razão, é o pensamento.

Não é isto, porém, de modo algum equivalente, pelo menos em filosofia, ao que diz o Sr. Sérgio, à página 126 do seu formoso livro: que “a razão, por sua vez, é um sentimento e é um instinto”.

Não. Razoável seria dizer que o amo da razão é sentimento normal do homem. Um ser racional não é o que obedece a um instinto (tendência cega de ordenação) Os irracionais, estes sim, a ordenação é neles instinto.

O não ultrapassar-se o homem ou a inteligência humana, o ter ela limite naturais, não é ser sujeita a nenhuma fatalidade, pois se não compreende um ser ultrapassando a sua própria essência, o que equivaleria a deixar de ser o que é. O que caracteriza a inteligência humana é ser livre nos limites que lhe deu Deus. O instinto é justamente mais “certo” porque não escolhe, executa aquilo para que foi feito sem vacilações do critério.

O admitir-se, mesmo só de um ponto de vista filosófico, racional, o Deus criador, das almas como das coisas, é o bastante para resolver e esclarecer toda esta questão, tão obscura e complicada se, na própria inteligência, se na própria razão, tão somente, se quer encontrar o fundamento da vida racional, tal como faz o Sr. Antônio Sérgio.

Quando em outro ponto de seu livro, pag. 201, o Sr. Sérgio, discutindo o que dissera Ferrero, isto é, que “o regime antigo do racionalismo não é contrário à natureza humana”, mais uma vez comete, não direi já um absurdo, mas um desses seus comuns ataques ao que é universal e historicamente reconhecido no domínio da filosofia, pois esta é a pergunta que formula: “mas a qual das humanas naturezas?” E continua: Releva-nos aqui distinguir duas: a animal e a espiritual, a dos instintos e a da razão.”

Ora, o certo é que não há “duas naturezas humanas”. O Sr. Sérgio poderia falar da natureza da razão, da natureza do instinto, etc., mas jamais dizer o que disse, porque quando não se quer inovar pelo simples gosto de inovar – diz-se simplesmente que a natureza humana se nos apresenta como composta de razão, de instintos, de espiritualidade, de animalidade, etc.

Enfim, meu caro Camillo, como vê v. o Sr. Sérgio é dos que erram por orgulho. Ele ama uma regra, quer que os homens a reconheçam, tanto no domínio moral como no do puro conhecimento, mas … eis a verdadeira questão… – ele, o Sr. Sérgio, é quem tem que a determinar, aponta-la, etc.

Assim é sempre, assim foi sempre no pandemônio filosófico desde o que ele próprio, o autor dos “Ensaios”, chamou de “disciplina helênica”.

Disciplina helênica! Meu caro Camillo!

Deus tenha piedade de nós, se é certo que nos degradamos, tal como diz o Sr. Sérgio, todas as vezes que a exorbitamos, o que, a meu ver, quer dizer criamos alguma coisa do nada.

Jackson de Figueiredo.
Rio de Janeiro, 1921.

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