Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

A consciência religiosa do país e o momento político

Em tudo quanto se tem escrito ultimamente sobre a questão das candidaturas à presidência da República, tenho notado como que o propósito de afastar para o mais longe possível a discussão das ideias que pode vir a representar, se vitorioso, qualquer dos grupos contendores neste momento, e, até agora, se tem atacado ou endeusado as personalidades dos srs. Arthur Bernardes e Nilo Peçanha como forças políticas no pior sentido da expressão, isto é, como cabos eleitorais.

Nada mais se tem querido ver neles que dois felizes mortais amantes do mando e a um dos quais o mando tem que caber, sejam eles bons ou maus sujeitos, pois a verdade é que cada um é um semideus para uns tantos ambiciosos que o acompanham e um miserável para outros tantos ambiciosos, que acompanham o seu rival. O porque desses juízos é que não parece bastante fundamentado ao bom senso que tenha horror a um tal partidarismo, de que resulta, afinal de contas, ser impossível fazer um julgamento sincero de qualquer desses homens. Aliás, estou certo que no Brasil, mais do que nunca, só merece dúvida e até desprezo uma certa opinião pública, formada por já conhecidos processos jornalísticos, que, não faz muito tempo, após ter arrastado o sr. marechal Hermes pelas mais negras ruas da amargura, nem ao menos achou necessário justificar-se quando, ré confessa de calúnia, lhe rendeu as mais subidas homenagens.

Num momento da vida nacional, que o sr. Rui Barbosa crê ainda mais grave que o de 1889, não seria mais acertado, mesmo do ponto de vista do egoísmo de cada um, que o debate politico se elevasse alguns covados acima das objurgatórias e apologias de carácter pessoalíssimo? Não seria mais conveniente, até para o mais humilde dos ambiciosos, esquecer questiunculas políticas para atender somente a esta de que, tendo graves problemas sociais a resolver, o Brasil requer governos capazes de os enfrentar com energia e bom senso, pois ninguém, por mais pequeno, escapará aos prejuízos gerais, se tais problemas não merecerem a atenção mais honesta? Não sei se será mesmo invejável a sorte daquele a quem couber, após o Centenário da nossa Independência, o papel de domador desta incerta democracia, mas por isto mesmo a análise a que deveremos sujeitar os pretendentes àquele alto, nobre e ambicionado martírio, deveria visar, de preferência, as linhas gerais, as bases de cada programa, pois em psicologia objetiva, raro é que se possa penetrar com segurança refolhos de uma alma, em suas infinitas nuances.

De fato, não é difícil verificar o pessimismo ou o otimismo essencial de um dado homem, mas raro é que se surpreendam as mil componentes de um dado temperamento. Também no mundo das ideias: não é difícil saber se um homem é crente ou céptico, mas duvidosa será sempre a determinação da sua espécie de crença ou de ceticismo. Assim, por mais suspeitas que sejam, a verdade é que as confissões dos próprios tipos que analisamos, têm que ser levadas em conta, como principal elemento, no juízo que deles queremos formar.

Não é duvidoso, por exemplo, que se possa alcançar, da confissão de um homem público, a quem, particularmente, quer ele agradar, se bem que não seja tão certo reconhecer a quem lhe não importa ser desagradável. E raro é que o otimista não ame ser tido por otimista, e ainda mais raro, apesar de parecer o contrário, que o pessimista não se vanglorie de pessimismo. O poeta que disse: “Tristeza, minha única alegria!”, certamente não mentiu, disse o que sentia. E nesses domínios a confissão vai tendo maior valor à medida que se faz mais complexo o problema da determinação psicológica. Eu sou um crente, diz quem, à primeira vista, nos parece refinado hipócrita. Será um hipócrita. Mas a crença ainda vive nesse infeliz. Ele não seria hipócrita, seria cínico ostensivo, orgulhoso do seu cinismo.

Coisa ainda digna de nota é que, quando já a essa altura nos domínios da psicologia, tem valor singular a própria forma das afirmações, se categóricas, incisivas, terminantes, se dúbias, frouxas, imprecisas. Para nós, católicos, é isto elemento de primeira ordem para o julgamento que queiramos fazer de qualquer indivíduo, em relação ao nosso Credo. O católico é como um rei, dizia Veuillot: afirma desassombradamente a sua fé. Eu sou católico, ponho acima de tudo o amor de Deus, de Jesus Cristo, dos mandamentos da sua Igreja, a Igreja católica, apostólica, romana. Quem assim não fala não é, para nós, aquele irmão na Verdade suprema, pela qual tudo devemos sacrificar. Ora, este artigo só se dirige aos católicos brasileiros, àqueles que lutam, como eu, pelo prestígio das crenças tradicionais do Brasil, e querem que elas influam cada vez mais em todos os domínios da nossa vida social e política, direito que não lhes pode ser negado num país em que se diz que a democracia é verdade e onde, por conseguinte, está mais que legitimamente assegurada a vitória das maiorias.

Pois bem: não só nós, católicos, vemos, com Donoso Cortes, sob toda questão social, uma questão teológica; Guizot, um protestante, e também homem de Estado, assim pensava. Assim também pensava o próprio Proudhon, como se pode verificar nas suas “Confissões de um revolucionário”. Se assim é, e se somos a maioria absoluta da Nação, não podemos esquecer, nós católicos brasileiros, e não devemos temer o cumprimento de um dever para com a nossa fé, quando está em jogo o governo temporal da sociedade a que esta fé alimenta e unifica espiritualmente, e sabemos quanto é vantajosa a harmonia dessas duas autoridades na história de todos os povos. E este dever é o de indagarmos, justamente, sobre que base de fé repousam as promessas de cada um dos pretendentes ao mando supremo da Nação. Já que devemos obediência a uma constituição política, que nós mesmos consentimos que se proclamasse, sem consulta dos interesses religiosos da maioria que somos, é lógico que não desejamos um governo de caráter confessional. Mas por isto mesmo não devemos nunca concorrer para que o tenhamos anticatólico, sectário, a serviço de uma das minorias religiosas do país.

Agora, pergunto se pode haver dúvida, da parte de um verdadeiro católico, ante os nomes dos srs. Bernardes e Nilo, após a leitura das duas entrevistas concedidas por estes senhores ao sr. Soares de Azevedo, distinto redator d’”A União”. Poderá haver, entre nós, quem fique indeciso entre a serena afirmação de catolicismo do sr. Bernardes, e aquele “eu sou católico” do sr. Nilo, que a cada passo confunde a nossa Igreja, a Igreja da maioria absoluta dos brasileiros, com as seitas, a que a nossa Constituição garante plena liberdade?

Quem escreve estas linhas não conhece o sr. Bernardes nem o sr. Nilo. Não tem dom de profecia, nem é tão bom avaliador das nossas atuais forças políticas, a ponto de ter já por vitoriosa a candidatura do sr. Bernardes, a quem desde agora estivesse a mendigar alguma futura recompensa. Dados os processos dúbios do nosso mundo politico, confessa mesmo que crê mais na vitória do sr. Nilo, de quem a aureola de malabarista e um mau livre são as únicas coisas que conhece. Mas se se fizesse eleitor seria para votar com a sua consciência de católico. E é isto o que vem lembrar aos eleitores católicos do país.

Jackson de Figueiredo.

O Jornal, 20 de Julho de 1921.

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