Sociedade civil católica, destinada à difusão da Cultura Ocidental e à atuação política em defesa da família, em observância à Doutrina Social da Igreja.

O Natal

D. Crisóstomo d’Aguiar

“Sabereis hoje que o Senhor vai aparecer e amanhã gozareis dos esplendores da sua glória”: era assim que a Igreja, numa santa impaciência, exprimia a sua alegre esperança de receber a Jesus-Menino na bem-aventurada noite de Natal; e quando viu realizadas as suas aspirações, irrompe-lhe dos lábios o sonoro invitatório de Matinas, convidando-nos a um ato de reverente adoração aos pés daquele Menino que acaba de nascer e jaz humilde no presépio: Vinde, adoremos a Cristo que acaba de nascer!

O Céu inclinou-se até nós e a terra produziu e deu-nos o seu fruto: estão satisfeitos os vivos desejos que durante o Advento o suave e luminoso Roráte tão bem exprimia, porque no majestoso silêncio da noite radiosa como o mais deslumbrante dia, “o sol se levantou no Céu e viu-se o Rei dos reis que procede do Pai como esposo que sai do seu leito nupcial”. “O Verbo fez-se carne e habitou conosco”!

Do austero e humilde berço onde está reclinado, sorri-se para nós o doce Infante, filho de Maria e irmão nosso, com aqueles olhos inefáveis e profundos que hão de um dia fascinar as multidões, quando, já o mais belo dos filhos dos homens, numa linguagem nunca antes ouvida, desvendar os segredos de seu Pai, os segredos do seu reino, do qual só poderão participar os que, como Ele, se tornarem humildes criancinhas!

Enquanto se não aproxima a suntuosa caravana dos magos do Oriente conduzidos ao presépio de Belém por uma misteriosa estrela, o cortejo dos humildes vem saudar o Deus-Menino, depois de, na planície, ouvirem os coros angélicos, cantando em harmonioso concerto: Glória a Deus nas alturas, e, na terra, paz aos homens de boa vontade; e prostram-se reverentes diante de Jesus, a Quem reconhecem como Deus.

Assim é que, durante este período litúrgico, a lição que mais se nos inculca é uma lição de humildade. Se os prodígios que acompanham o acontecimento que celebramos nos demonstram que “o Verbo se fez carne”, que o Menino que repousa num presépio é Deus, as aparências sob as quais realizou a maior ora do seu amor para com a humanidade mostram que só por um incompreensível mistério de humilhação é que a Divindade se dignou assumir a natureza humana, ser uma simples e humilde Criancinha.

Temos pois que nos fazer pequeninos, abeirar-nos dEle com sentimentos de simplicidade, e mais com toda a convicção da nossa fé amorosa, sabendo que o Menino que reverenciamos é o “Rei dos reis, saído dos esplendores do Pai”.

Conquistados ao seu amor pelo amor que nos mostra, sentiremos, decerto, a necessidade de com Ele nos parecermos para lhe agradarmos, e teremos por nada quaisquer humilhações, contemplando o que há de abandono e pobreza, e de humildade, no estábulo de animais, onde O vemos.

A magnífica apóstrofe que numa das grandes Antífonas a Igreja dirige a Deus, chamando a vinda da eterna Sabedoria que atinge com força e doçura o princípio e o fim das idades, podemo-la aplicar à carreira mortal de Jesus.

De Belém até o Calvário nasce e morre para impor à nossa fé a mesma grande verdade de que será pela morte a nós mesmos, valentemente suportada, que nasceremos para a vida nova a que Ele nos veio chamar. À primeira vista tudo se nos afigura prazeres e alegrias na noite de Natal, e tristezas e abandono nas horas de agonia sobre o Gólgota. E contudo que doçuras na Cruz e que força no Berço!

Trabalhemos, então, por correr e crescer, neste período litúrgico, que vai até a Purificação de Maria , que de crescer e correr nos deu exemplo Jesus Menino com doce insistência. E se, conforme S. Agostinho, o abandono é o fruto delicioso do amor, abandonemo-nos com humilde simplicidade, como crianças, às divinas disposições, à imitação de Jesus, que, sendo Deus, se entregou à vontade de seu Pai, mais do que isso, à de simples criaturas, como José e Maria, num abandono, que jamais desmentirá até o instante em que exalará, do alto da Cruz, para melhor ser ouvido, o gripo supremo: meu Pai, em vossas mãos entrego o meu espírito.

Por absorta que vejamos a Liturgia na contemplação do suave mistério do Presépio, nem por isso ela perde de vista os felizes personagens que presenciaram as cenas sublimes do Nascimento!

É, em primeiro lugar, Maria; pois, como poderiam separarem-se os nomes da Mãe e do Filho? Já nas Laudes da Noite santa se exaltam, numa bela antífona, as glórias da virginal maternidade de Nossa Senhora, mas é sobretudo na Circuncisão do Senhor, que a Igreja se empenha em cantar, em fórmulas sugestivas, as glórias da Mãe de Jesus.

Depois, na festa da Epifania, são os Magos que generosamente e cheios de fé vêm ofertar ao Deus recém-nascido os simbólicos presentes do ouro, da mirra e do incenso…

Uma estrela milagrosa manifesta-O a esses homens vindos de longes terras, primícias da gentilidade, que O reconhecem por Deus e Rei.

A voz do Pai e o Espírito Santo descendo sore Ele, no Jordão, hão de O manifestar aos discípulos de João Batista; e, nas bodas de Caná, a si mesmo se denunciará com o primeiro milagre: Tribus miráculis…

Não nos admire esta larga perspectiva que tão longe parece levar-nos dos encantos de Belém, do mistério do Natal: O Menino que acaba de nascer é “o gigante pronto a lançar-se na carreira” e, a Igreja, ávida de o seguir, é mister que agrupe, para os estudar e meditar, os acontecimentos, não venha a Septuagésima turvá-la nas suas alegrias, preparando o nosso coração para o sangrento drama da Paixão…

Que profundos ensinamentos não encerra a infância de Jesus. Ela sabe, a santa Igreja, que Aquele que acaba de nascer é um Menino que há de ser mártir do seu amor por nós e entende que o mais nobres troféu a suspender por cima do berço dEle serão as palmas sangrentas e as anta, e faz agitar em volta de Belém.

Estêvão, o proto-mártir do Cristianismo, une por uma heroica morte o seu sangue com o que fora derramado no Calvário, e imita a Jesus Cristo no exemplo dum perdão supremos concedido na hora extrema.

Depois de Estêvão, imolado na plenitude da vida e consciente da morte que recebia, vêm os Inocentes, arrancados dos braços das mães, na aurora da vida, enquanto ecoava, estridente e desesperada, pelas colinas de Rama, a desolada voz de Raquel, chorando a morte dos recém-nascidos, enquanto o Céu se abre a essas sangrentas vítimas, com aquela imarcescível glória que há de regozijar também um dia as pobres mães agora inconsoláveis.

Enfim é João Evangelista, o discípulo a quem Jesus mais queria, o amigo que mereceu, por sua virginal candura receber a Maria por mãe ao pé da Cruz, o Vidente de Patmos, cujo olhar de águia contemplou o nascimento eterno do Verbo feito carne, é João que, no seu Evangelho, tem palavras eloquentes para a humilde Criancinha a que mais realce dá a sua augusta presença de Velho.

Tal é o tempo do Natal, todo alegrias e jubilosos acentos, que se prolongam com caráter festivo por uma quarentena inteira.

A alma, preparada pelas provações do Advento, está pronta para se deixar iluminar pelos raios que lhe vêm de tidas estas epifanias e manifestações de Jesus, até, mais tarde, com as luzes da Paixão, Morte, Ressurreição e Ascensão e da descida do Espírito Santo, poder remontar-se aos mais altos cumes da vida espiritual, prelúdio da perfeita intimidade com Deus, que será a Bem-aventurança dos eleitos.

Oxalá sintamos crescer em nós a alegria , a confiança, o reconhecimento e o amor! São estes os sentimentos que nos inspira a Liturgia, e deles os dá a melhor, a mais profunda e sincera expressão.

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